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terça-feira, junho 14, 2005

A Arte de Contar Histórias nas Escolas


As crianças estão sentadas no chão, em círculo. Ouvem a professora, que conta uma história. Umas escutam em silêncio, outras querem interferir. Mas a hora do conto ou da roda de histórias, uma prática cada vez mais disseminada nas escolas de educação infantil e ensino fundamental, chama a atenção de todas elas."

"A roda de histórias não pode deixar de acontecer aqui. As crianças pedem. É um dos momentos mais importantes da rotina delas", diz Michele Sasson Salama, 41, diretora da escola Centro de Estudos e Convivência Infantil Arraial das Cores, que adota a roda para crianças a partir de um ano.
"As histórias possibilitam que as crianças entrem em contato com outros universos e, assim, conheçam melhor os outros e a si próprias", afirma Regina Scarpa, 44, coordenadora pedagógica da ONG Cedac (Centro de Educação e Documentação para a Ação Comunitária). "Elas propiciam à criança um contato com outras realidades, culturas, experiências e visões de mundo, as ajudam a compreender os conflitos internos pelos quais possam estar passando e são, além de tudo, a porta de entrada para o mundo das letras e dos livros."
A imagem de alguém contando "causos" ao redor de uma fogueira é recorrente no imaginário popular, mas, embora esquecida durante algum tempo, tem retornado com força às escolas. "Pais, avós e tios têm cada vez menos tempo para dedicar às crianças, e a arte de contar histórias está se concentrando nas instituições", diz Linice da Silva Jorge, 52, contadora de histórias e mestre em ciência da comunicação pela USP. A maior parte do seu trabalho, hoje, concentra-se na formação de educadores: "Eles estão assumindo a função de contadores de histórias", diz.
Além de fazer parte do imaginário infantil quase naturalmente, a prática de ouvir histórias desperta habilidades importantes para o desenvolvimento das crianças. "Ela remete a exercícios de contemplação e de reflexão, e isso é indispensável num mundo acelerado como o que vivemos", afirma o professor Edmir Perrotti, 58, da Escola de Comunicações e Artes da USP.
As escolas apropriaram-se do ato de contar histórias também porque ele ajuda no trabalho educativo com a diversidade cultural, recomendado pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), na orientação geral dada pelo Ministério da Educação. Segundo Perrotti, as histórias também são úteis para atingir esse propósito. "Com tantas diferenças socioculturais no país, uma história ou um conto popular tem o poder de aproximar as pessoas. Esse tipo de narrativa simboliza a imensa teia de que é constituída a cultura."
Outra vantagem é o fato de que a criança faz seu primeiro contato com o conhecimento por meio da narrativa. Os especialistas afirmam que, por isso mesmo, o contador de histórias não deve simplificá-las ou mudar as palavras para facilitar a compreensão, mas deixar que a criança tente compreender o seu sentido pelo contexto. "Com isso, ela aprende a diferença entre texto escrito e linguagem oral, informação fundamental para o processo de alfabetização", complementa Michele Salama.
Para Graça Baruzzi, 47, coordenadora pedagógica da Escola Carandá (zona sul de São Paulo), essas atividades são uma maneira de desenvolver o gosto pela aprendizagem. "O contato com as histórias faz com que a criança viaje, fazendo uma leitura do mundo. Cada história proporciona uma nova descoberta." Na Escola Carandá, as crianças ouvem histórias desde o ensino infantil até a quarta série do ensino fundamental —nessa fase, elas também criam e apresentam suas próprias histórias.
Tanto a seleção do tipo de histórias como a forma de contá-las interfere no resultado. Francisco Marques, o Chico dos Bonecos, 44, conta histórias profissionalmente há quase 20 anos. Para ele, que utiliza bonecos, canções e outros apetrechos, contar histórias é um ritual "em que os ouvintes se envolvem não apenas com o rumo dos acontecimentos mas também com o rumor das palavras".

2 comentários:

Soraia Spolidório disse...

Prezado!
Sou Professora de TEatro e Filosofia e por muitos anos trabalhei como Contadora de Histórias, gostaria de parabenizá-lo pelo Projeto em pauta.
Show!

Soraia Spolidório disse...

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