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quinta-feira, abril 28, 2005

A liberdade de ler: em busca da fruição

Estamos em uma era em que os meios de comunicação exercem forte influência sobre as pessoas, ditando regras e estabelecendo padrões. Dentro desse contexto, a literatura ocupa um espaço minoritário, deixando uma enorme responsabilidade aos educadores para a mudança dessa realidade. Faz-se necessário entender quais motivos levaram a Literatura Infantil ser rejeitada como arte entre as crianças, e assim ser pouco difundida e manuseada por elas.
Essa rejeição justifica-se pela origem histórica da literatura infantil, que tem relação estreita com a concepção de infância que começa a se estabelecer no século XVII. Em virtude da ascensão da família burguesa, uma nova concepção de infância surge, a criança passa a ser vista como um ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias. É inevitável uma educação dirigida a ela, surgindo então, a organização escolar. Segundo Arroyo, “a concepção de criança está em constante transformação, dependendo do momento histórico e do papel que a mulher exerce na sociedade, uma vez que em nossa cultura a mãe está muito próxima ao infante, pois a concepção de criança muda de acordo com o papel que ela assume”
[1].
Partindo desses pressupostos, é interessante ressaltar que a literatura destinada às crianças no século XVII era de cunho estritamente pedagógico, com finalidade pragmática, incumbida de dominar a criança. ZILBERMAN esclarece “Concebida originalmente como objeto exclusivo das crianças, passou a receber um status científico, no momento em que se percebeu que não apenas era produzida pelos adultos, mas, como se viu, manipulada por eles, tendo em vista a dominação da infância”
[2].
Além disso, a literatura tradicional está impregnada de valores que vem padronizando pensamentos e comportamentos desde então. Ao observar os heróis românticos, constata-se que são seres exemplares dotados de muitas virtudes, deixando evidente o individualismo, pois tornaram-se modelos ideais a serem seguidos. Também está implícito nessas literaturas, o quanto é importante o ter, desvalorizando o ser.
Nesse período, em conseqüência da dominância religiosa, as literaturas apresentavam em seus enredos, grande valorização à virtude e punição severa ao vício, que se daria além da vida. O sexo era uma afronta a moral, tendo como objetivo apenas a procriação, limitando o prazer aos homens. Como conseqüência, passou-se a produzir uma literatura que trabalhava a acepção entre homem e mulher, evidenciando o papel que cabia a cada um.
A literatura tradicional vem sendo difundida desde então, sedimentando-se na práxis pedagógica dos educadores. Contudo, contemporaneamente não se pode fazer uso da Literatura Infantil, como há cem anos atrás, formando leitores decodificadores e seguidores apenas de uma pragmática, sem se considerar o texto como um leque de possibilidades interpretativas.
Contrapondo a literatura tradicional com a literatura atual podemos verificar diferenças básicas. Essa última, segundo Novaes Coelho, enfatiza o espírito solidário, não mais o indivíduo herói, mas um grupo que em conjunto encontra soluções, que são conseguidas através de questionamentos da “verdade”.
Numa nova visão de literatura, as histórias devem questionar o poder absoluto e a realidade social vigente, dando subsídios para a transformação necessária, valorizando o ser acima do ter, visando a construção de um ser que não é perfeito, mas está em aperfeiçoamento constante. O sexo, não é mais apenas um modo de procriação, mas também de fruição e as famílias deixam de ser ideais, abordando outras realidades como a de pais separados, mães que trabalham fora. Apesar de abordar os itens citados e tantos outros, a literatura nova não deixa de possibilitar a fruição, mas “é antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua possível realização...”
[3]
No âmbito das considerações anteriores, vale ressaltar que o professor tem a tarefa de propor situações agradáveis à criança para que possa deixá-la livre. Para Cagneti, “libertar o leitor é deixá-lo em contato com o livro e permitir que ele sozinho busque seus caminhos literários, através de seus próprios meios – tirando do texto o que mais lhe interessar no momento, usufruindo aquilo que veio ao encontro de suas buscas, sentindo prazer de ler pelo ler sem ser cobrado depois. A identificação do leitor com o texto é sua e, portanto, singular. Como, então, cobrar o que eu, professor, não senti?”
[4]
A leitura pode ser uma fonte de alegria tanto quanto pode causar perturbações à alma, como enfatiza Rubem Alves
[5]. A maneira como ela é abordada é que definirá a sensação que causará ao leitor.
Para que a sensação causada não seja de desprazer, é importante provar os paratextos do livro, que requerem uma certa sensibilidade. Dessa forma, o leitor decidirá se continuará ou não a leitura, pois se entregar à degustação de um livro, sem saboreá-lo, é prova de doidice.
Contrapondo-se à fruição que o livro é capaz de causar, a escola aborda a literatura unicamente como fonte de saber, tornando-a pesada e difícil de “roer”. A escola não considera que o escritor não escreve com o intuito de formar consciência crítica, mas com o objetivo de fruir prazer em quem lê. Dessa forma, ela utiliza a literatura apenas com finalidades pedagógicas.
Rubem Alves reforça que quando a escola assume a postura de apenas informar sobre a literatura, acaba castrando os órgãos de prazer da criança que possivelmente sairão da escola sem se iniciarem no mundo prazeroso da leitura.
Utilizar-se de recursos que incentivem a busca pelo livro é incumbência do professor, e a informática é um instrumento que abre muitas possibilidades para se aguçar a imaginação da criança. Ao contrário do que muitos pensam, o computador não é um instrumento que anula o livro, mas que o enriquece com o auxílio da tecnologia.
Outro item importante é a ilustração de um livro, pois através da leitura icônica a criança inicia no mundo literário muito antes de aprender a decodificar a escrita. Com a ilustração, o autor do texto pode enriquecê-lo ou matá-lo. Os livros de Ziraldo são um exemplo de ilustrações que permitem à criança leitora criar em cima do texto já escrito, contribuindo para a sua formação cognitiva, emocional e social.
Portanto, cabe ao educador construir uma nova concepção de literatura, utilizando-a não apenas como um meio para ensinar um conteúdo, mas possibilitando à criança fruir através da história, suscitando seu imaginário, tendo uma visão mais ampla de tudo que a cerca, tornado-a mais reflexiva e crítica, sendo capaz de organizar seu pensamento frente a realidade social que vive e atua.
No auto-estranhamento do texto
[6], ou seja, na reversibilidade da criança com a história, dá-se um processo de leitura e releitura do texto que gera um remoer existencial. A criança vai criando seu próprio discurso e, por mais que o texto lido seja rico, sempre haverá espaço à criança para imaginar e sonhar. Além de proporcionar prazer, a história pode suscitar respostas e apresentar novas emoções. “É ouvindo estórias que se pode sentir (também) emoções importantes, como a tristeza, raiva, a irritação, o bem-estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranqüilidade, e tantas outras mais a viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve”.[7]
Nesse sentido, é importante a experimentação de atividades de leitura e produções diversas que gerem uma relação fruitiva entre leitor e livro. Para BARTHES, essa relação fruitiva se constrói quando o leitor penetra nas margens do texto, perpassando pelas suas a fendas, descamando o texto, descobrindo as suas camadas ocultas. Uma relação que só se estabelece depois do primeiro passo: a conquista do leitor.
Portanto, depende dos adultos aproximarem a criança e o livro de modo prazeroso: “Se a criança é a única culpada nos tribunais adultos por não ler, pede-se o veredicto inocente... mais culpados são os adultos que não lhe proporcionam esse contato, que não lhe abrem essas - e outras tantas – trilhas para toda maravilha que é a caminhada pelo mundo mágico e encantado das letras...”
[8]

(Simone Gonçalves da Silva Policarpo)

Um comentário:

jane disse...

Olá! Gostaria de ler o artigo completo,se possivel ,envie para o meu email,estou fazendo monografia em literatura infantil.Agradeço desde já .janinha.jpc@gmail.com