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quinta-feira, julho 28, 2005

Além das Histórias


Aprender a ler significa também aprender a estabelecer vínculos entre um número cada vez maior de informações. Um bom estímulo nesse caso são obras que combinam características de gêneros diferentes (o romance histórico, por exemplo).A biblioteca de uma escola precisa de livros de diferentes naturezas, pois a diversidade representa uma grande contribuição ao enriquecimento cultural dos alunos: romances filosóficos ou históricos em que passagens importantes na história da humanidade ganham tratamento literário; depoimentos pessoais que falam sobre modos de vida em diferentes tempos e culturas; textos que compõem manuais e outras obras de referência (enciclopédias e dicionários) etc. Muito úteis na escola e fora dela, livros assim são recursos indispensáveis ao processo de aprendizagem, mas às vezes sua utilização requer um planejamento cuidadoso. Ao adotar uma obra como Volta ao mundo em 52 histórias, na qual as narrativas vêm acompanhadas de um rico aparato de informações complementares, o professor precisa estar atento para que os alunos aprendam sobre os temas tratados pelo conjunto de textos informativos, mas sem se distanciar da idéia de que a literatura é sempre, e antes de mais nada, fonte de emoção, de prazer, de diversão, de assombro, de encanto. Muitos títulos utilizam recursos literários para informar sobre determinados temas, como Histórias da Bíblia e Mistério de Natal. Outros ainda mesclam diferentes tipos de texto, como Robin Hood e os demais títulos da mesma série, ou como na Coleção Memória e História. Na série integrada por Robin Hood, podemos observar que os ilustradores se valem de obras de arte de diferentes épocas para obter os dados de que precisam ao criar as ilustrações. Como trabalhar com esses textos? Nas classes de educação infantil, as crianças estão aprendendo a aprender. O professor pode ter na sala livros que ofereçam informações próprias para alimentar as motivações que observa em seus alunos. Por exemplo, se está em curso um estudo sobre os animais de estimação, o livro A outra enciclopédia canina, com suas ilustrações variadas e seus textos bem-humorados, pode servir como desencadeador de conversas sobre os animais que as crianças têm em casa. O professor pode ainda fazer uma lista dos tipos e nomes dos bichinhos de estimação dos alunos e organizar um painel ou um álbum de fotos dos animaizinhos e seus donos, com legendas indicando o nome dos retratados. À medida que crescem e têm cada vez mais condições de vincular diferentes tipos de informação, as crianças podem ser incentivadas a ampliar seus conhecimentos com informações relacionadas a conteúdos escolares que não são necessariamente matéria de estudo. Por exemplo: conhecer a história dos números que utilizam nos exercícios de matemática, no livro Brincando com os números, ou a história da música ao longo dos tempos em Viva a música!. Para o ensino fundamental, nas primeiras séries, as pesquisas sobre temas de ciências naturais encontram ilustrações ricas em livros como ABC do zôo, uma espécie de dicionário ilustrado sobre animais do Brasil. Além de um apoio para estudos sobre a vida animal, ele pode ser um livro para o desenvolvimento de atitudes mais comprometidas com a defesa da fauna brasileira. A Coleção Quase Tudo O Que Você Queria Saber traz, ao final de cada volume, pequenas notas que indicam caminhos possíveis ao leitor, caso ele queira mais informações sobre os temas de alguma história contada no livro. O professor pode chamar a atenção dos alunos para esse fato. Já a Coleção A de Artista, da qual faz parte, por exemplo, M de Matisse, apresenta uma forma inusitada de biografia do artista e constitui um bom material de apoio para enriquecer as atividades da área de artes. Organizados em tópicos alfabéticos, são livros que trazem fatos da vida pessoal do artista, marcas da sua produção, lugares onde viveu, pessoas que influenciaram sua vida e sua obra etc. Nas classes da quinta à oitava série, biografias e contextos históricos de criação literária são conteúdos bastante pertinentes para o momento de formação do estudante e do leitor. Os alunos, já com noções de tempo histórico, podem aprender sobre a influência dos contextos históricos na produção dos escritores e construir condições de entender por que uma mesma história ganha diferentes versões ao longo dos tempos. Nos livros Histórias para aprender a sonhar e Raineke-Raposo, por exemplo, há informações sobre o ambiente histórico e as condições de produção das histórias, material precioso para esse tipo de trabalho..................................................................................................
Extraído do site www.ciadasletras.com.br - sala do professor - caderno de leituras

A Poesia das Palavras


As crianças são extremamente receptivas às quadrinhas e a todo texto que ressalte o caráter lúdico da linguagem. É preciso aproveitar a sala de aula e colocá-las em contato com ritmos e rimas, para que elas aprendam desde cedo que a língua pode estar a serviço da poesia. Quando as crianças chegam à escola, já são falantes e usuárias competentes da língua materna, tendo portanto um conhecimento implícito das regras de seu funcionamento. É o momento de transformar esse conhecimento em algo explícito, e, para isso, os professores planejam diversas situações didáticas em que possam conversar com seus alunos sobre o funcionamento da linguagem, suas regras, a língua escrita etc. No momento em que as crianças se deparam com a leitura de textos literários, surge a necessidade de lhes mostrar o uso da língua como obra de arte. Ora, assim como o artista utiliza a tinta e o pincel para pintar seus quadros, o escritor utiliza palavras para criar seus textos. É preciso colocar os alunos em situações nas quais seja possível observar e analisar a diversidade de materiais que a língua oferece, seja em termos de ritmo e sonoridade, seja em termos de significação. Descobrir que sons combinados podem deixar uma frase engraçada, que uma palavra pode modificar completamente o sentido de um texto, que a combinação de sílabas pode dar um ritmo todo especial às histórias, que uma palavra pode ter vários significados... Enfim, descobrir que a linguagem ultrapassa a barreira das regras cotidianas e se transforma no material de trabalho do escritor não só amplia o conceito de linguagem que as crianças já têm construído, como contribui para a formação de leitores mais exigentes. Embora esses recursos também estejam presentes em todos os tipos de texto literário, nos poemas e quadrinhas eles ganham destaque especial. Por essa razão, é importante que em alguns momentos do trabalho a atenção dos alunos seja voltada especificamente para o universo das poesias e textos ritmados. A leitura de poemas e quadrinhas é uma atividade que possibilita infinitas observações: a rima, o uso dos fonemas, a brincadeira com o significado das palavras, a disposição gráfica do texto na folha de papel... As crianças entre 3 e 6 anos, que freqüentam as classes de educação infantil, têm muita sensibilidade no que diz respeito à sonoridade das palavras; por isso, brincadeiras com os sons da língua agradam muito e possibilitam inúmeras atividades. Entre 3 e 5 anos, como as crianças ainda não lêem convencionalmente, o professor pode, por exemplo, ler os poemas de Fora da gaiola, Girassóis e Bem-te-vi algumas vezes durante um período, para que elas possam conhecê-los bem. Na seqüência, pode propor que cada uma escolha o poema que gostaria de recitar para os colegas durante uma roda de leituras. Pode ser solicitado aos pais que ajudem na tarefa de memorização e, para isso, será preciso que cada criança tenha em casa seu próprio exemplar do livro. O "recital" preparado pela classe pode ser realizado também para outras turmas. Entre 5 e 6 anos as próprias crianças já são capazes de inventar quadrinhas usando rimas. Podem tentar criar um ritmo para pequenos poemas já conhecidos pela sala, como os que integram A arca de Noé; podem marcar com palmas o ritmo de poemas lidos; podem relacionar quadrinhas conhecidas ao nome ou apelido de colegas. Para tanto, o professor deve instruí-las a pensar nos sons dos nomes dos colegas procurando descobrir quadrinhas que combinem com eles. Nas primeiras séries do ensino fundamental o professor pode incluir uma atividade permanente na rotina - o "Minuto da poesia" -, na qual cada aluno apresenta para os colegas um poema que goste de ouvir e ler. É importante estimular os alunos a justificar sua escolha com apreciações do tipo "gostei porque tem rimas engraçadas", "achei diferente porque é um poema que não tem rimas". Pode-se também organizar uma coletânea de poemas para que os alunos os classifiquem segundo critérios como: bloco dos poemas que têm rimas, bloco dos poemas que não têm rimas, bloco dos poemas que são divididos em versos, bloco dos poemas narrativos etc. A partir da terceira série é possível incentivar os alunos a escrever seus próprios poemas e depois lançá-los em um "Livro de poemas", que passará a fazer parte do acervo da biblioteca da escola. Entre a quinta e a oitava série os alunos já têm, geralmente, uma competência maior no exercício da escrita, sendo capazes, portanto, de enfrentar desafios maiores na produção de textos e também de utilizar seus conhecimentos sobre o funcionamento da língua para justificar o que escrevem. Já podem estudar as rimas (pobres e ricas; cruzadas, interpoladas), os versos, a distribuição das estrofes e versos (em formas clássicas como o soneto, por exemplo), o ritmo, a sonoridade (aliteração), o uso das figuras de linguagem. Nessa etapa da escolaridade, uma boa proposta pode ser a elaboração de um livro de poemas narrativos no qual os alunos utilizem os recursos aprendidos. Nesse trabalho será possível:
Reunir poemas narrativos de vários autores.
Observar quais recursos expressivos são utilizados por eles.
Organizar antologias dos poemas de que a classe mais gostou ou de determinados autores.
Compartilhar com os colegas leituras de poemas de um autor predileto. No decorrer dessas leituras, os alunos podem produzir seus próprios poemas e compará-los com outros; podem também revisá-los à luz dos conhecimentos adquiridos. O livro Mamãe Gansa, que traz uma história bastante difundida entre as crianças, é um instrumento interessante para os primeiros passos de um projeto de trabalho como o proposto.
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Extraído do site
www.ciadasletras.com.br - sala do professor - caderno de leituras

sexta-feira, julho 01, 2005

A reinvenção das histórias

Não há história que só possa ser contada de uma única maneira. Mas, então, se de algum modo ela é alterada, continua a ser a mesma história? Reinventar histórias conhecidas aguça a percepção de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista.Quanto mais antiga a história, maior o número de versões que ela provavelmente terá. Pois, afinal, sabemos muito bem que "quem conta um conto aumenta um ponto". Os contos dos irmãos Grimm e de Andersen, por exemplo, são fruto de uma longa pesquisa de histórias populares, de narrativas da tradição oral que foram sofrendo alterações no decorrer do tempo. Hoje encontramos incontáveis versões para os contos mais consagrados que eles recolheram e compilaram. Esse é um tema interessante para discutir com as crianças na escola. Alguns livros, no entanto, se propõem algo mais inovador em relação à diversidade dos modos de contar: pretendem transgredir histórias muito conhecidas, operar recriações. É, por exemplo, o que Flavio de Souza faz em sua obra Que história é essa?, na qual conta histórias bem conhecidas, porém adotando o ponto de vista de personagens secundários que, muitas vezes, têm pouca participação no enredo da versão original. Outro livro em que algo semelhante acontece é A verdadeira história dos Três Porquinhos, de Jon Scieszka: ali o Lobo Mau narra a sua versão dos fatos, provocando, com isso, certa dúvida no leitor quanto à veracidade do que foi relatado em uma ou outra versão desse clássico da literatura infantil. Discutir com as crianças essas estratégias de criação amplia bastante seu olhar para as histórias e pode apontar novos caminhos de produção escrita. Nas classes de educação infantil é aconselhável apresentar e ler, ao longo de uma semana, várias versões de uma mesma história e em seguida perguntar às crianças sobre as diferenças e semelhanças percebidas entre elas. Depois pode-se sugerir que elas criem oralmente finais diferentes para os contos, produzindo versões do grupo. Pode-se também propor que alterem as aventuras vividas pelos personagens ou que incluam alguns novos, de tal forma que estes tomem parte nas ações relatadas. Com os alunos maiores, nas classes iniciais do ensino fundamental, é possível ampliar consideravelmente o trabalho. O professor pode sugerir a leitura de textos escritos do ponto de vista de outros personagens (como ocorre nos dois títulos mencionados antes) e discutir coisas muito interessantes. Pode, pouco a pouco, auxiliar seus alunos a considerarem pontos de vista diferentes: Será que existe sempre o bonzinho e o malvado? Cada personagem não terá tido suas razões para agir como agiu? Afinal de contas, o lobo precisa se alimentar de algo, é um animal carnívoro... Esse trabalho pode ajudar inclusive a discutir questões de ética, o que é tão importante na educação das crianças. Outras propostas de trabalho podem sugerir novas transgressões. Para isso, será necessário que o professor apóie a criação das diferentes versões, fazendo perguntas como esta: Agora quem quer ser a vovó da Chapeuzinho e contar a história como ela viu? O adulto deverá também dar sugestões que encorajem os alunos a acrescentar fatos e informações novas à narrativa conhecida; por exemplo: O que será que os caçadores estavam fazendo antes de entrar na história? Outros exemplos:
Alterar as características dos personagens e imaginar as implicações disso: como seria a história de Cinderela se ela fosse uma moça muito chata?
Introduzir modificações no enredo da narrativa original e, a partir disso, criar uma nova continuidade para ela: se João e Maria nunca tivessem encontrado uma casa feita de doces...
Acrescentar personagens de outros contos ou personalidades da atualidade em um conto consagrado: imagine que a Fera foi ao baile da Cinderela. Como a história ficaria?
Registrar encontros de personagens de dois ou mais contos distintos no decorrer de suas histórias: em que momento a Polegarzinha e o valente Soldadinho de Chumbo poderiam se encontrar? Como poderia ser esse encontro? O que eles diriam um ao outro?
É importante ter em mente que as crianças só poderão fazer as transgressões sugeridas e outras que poderão ser imaginadas se puderem ler e ouvir muitas histórias. Para que se sintam autorizadas e encorajadas a recriar narrativas consagradas, é preciso que tenham uma "biblioteca mental", um bom estoque narrativo na cabeça.Com as crianças maiores, da quinta à oitava série, a discussão pode ser mais aprofundada e as transgressões propostas a elas ainda mais elaboradas do que as anteriores. É possível, nessa faixa etária, propor que escrevam uma outra história, mas com os mesmos personagens vivendo situações semelhantes. Ou seja, a função deles dentro da trama não poderia ser modificada, apenas o contexto em que se encontram. Outra idéia é propor que pensem em transgressões livremente, desde que a história original possa ser facilmente identificada. Eles podem também ser solicitados a escrever diálogos entre personagens de uma mesma história, utilizando argumentos eficientes e eventualmente sugerindo, por meio do desfecho pensado para a conversação, novos rumos para o enredo das histórias conhecidas. Outra proposta é a reescrita de histórias conhecidas num contexto histórico e social diferente do usual, enfocando, por exemplo, problemas das grandes cidades brasileiras: Como se poderia reescrever a história de Pinóquio falando de seqüestro ou roubo de crianças? Que história poderia ser recontada enfocando a Aids, as drogas ou a prostituição? Além disso, podemos oferecer aos estudantes mais velhos informações sobre o contexto social em que várias versões de uma mesma história foram criadas, a fim de que compreendam algumas razões das diferenças entre elas.
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Extraído da revista eletrônica "Sala do Professor - Caderno de Leituras")

Como criar personagens?

Para o desenvolvimento de uma competência narrativa, é preciso desde cedo estimular os alunos a observar a caracterização dos personagens, a ver como eles são construídos, como agem, como teriam agido se não fossem como são.Quando as crianças chegam ao momento de escolaridade em que, já alfabetizadas e com conhecimentos suficientes sobre a linguagem escrita, podem escrever suas próprias histórias, as situações envolvendo a criação de textos narrativos se multiplicam. Se o professor deseja que seus alunos escrevam histórias originais, deve lembrar que um dos problemas que eles enfrentarão será decidir que personagens vão viver as tramas imaginadas. Deve também levar em conta que essa escolha dependerá do enredo que for criado por eles. A tarefa não é simples. O êxito depende da quantidade e da qualidade das informações e dos conhecimentos que cada aluno possui sobre o que caracteriza uma história bem contada, que personagens são adequados a determinado tipo de narrativa, por que são adequados ou não e, ainda, de que forma se pode introduzi-los, caracterizá-los etc. O conhecimento necessário para o desenvolvimento dessa competência narrativa não é espontâneo: começa muito cedo, quando, ainda pequenas, as crianças ouvem as primeiras histórias em casa, lidas ou contadas por pessoas da família. Nas classes de educação infantil, entre 3 e 6 anos, os momentos em que os professores lêem histórias são geralmente diários. As histórias lidas ou contadas podem ser selecionadas tendo por objetivo a composição de um universo de personagens que os alunos sejam capazes de conhecer, comparar, transformar, reconstruir. Com crianças de 3 e 4 anos podemos conversar, por exemplo, sobre as bruxas que aparecem em diferentes histórias, ou sobre as armas e os poderes de diferentes heróis. A partir de 5 e 6 anos, o professor pode criar situações em que os alunos tenham de identificar uma história conhecida, porém contada por um personagem e não pelo narrador, ou, então, com o foco da narrativa colocado em um personagem secundário. No livro Que história é essa?, Flavio de Souza utiliza esse recurso para recontar histórias conhecidas, como "A roupa nova do rei". É importante não desvincular esses desafios do prazer que o contato com os textos provoca, isto é, o professor não deve "dar aulas sobre personagens", mas falar sobre eles, sempre estabelecendo relações com as narrativas lidas. Quando os alunos chegam às primeiras séries do ensino fundamental e já sabem escrever convencionalmente, as possibilidades de trabalho se ampliam. A criação de uma galeria de personagens mostra-se uma estratégia fecunda.Histórias tradicionais na literatura infanto-juvenil como as reunidas no Livro de histórias ou nos Contos de Grimm permitem conhecer uma coleção de personagens de valor inestimável para a formação literária dos alunos em diferentes idades. Por isso, podem e devem ser lidas em diferentes momentos da escolaridade. A leitura dos livros da Coleção Quase Tudo O Que Você Queria Saber também pode contribuir para o desenvolvimento de seqüências didáticas que organizem, durante alguns dias, momentos em que os alunos realizem atividades como estas:
Levantamento das histórias e personagens preferidos pela classe. Seleção de outras histórias que contenham personagens semelhantes.
Comparação e caracterização dos personagens dessas histórias para o estabelecimento de uma tipologia. Comparar personagens relacionados à vida escolar, como os que aparecem em A professora de desenho e Estátua!, pode ser divertido e proporcionar boas condições para esse exercício.
Escolha (individual ou em duplas) de um entre os personagens estudados. Criação de um texto que descreva um novo personagem desse tipo. Por exemplo, se o escolhido for bruxa, os alunos elaboram por escrito uma descrição das características físicas e de comportamento da nova bruxa. Depois de escolhido um nome para ela, criam um desenho que ilustre a imagem descrita no texto.
Nesse momento, é interessante promover situações de pesquisa de expressões faciais observáveis nas ilustrações dos personagens estudados. Os alunos devem relacioná-las aos sentimentos dos personagens descritos no texto. Os textos e as ilustrações dos alunos podem depois compor um livro de personagens ou uma exposição. No segmento da quinta à oitava série os alunos já podem enfrentar desafios mais complexos, como introduzir novos personagens em uma trama já conhecida, fazer versões pessoais para histórias clássicas, criar histórias a partir de duplas ou tríades de personagens propostas pelo professor: príncipe/ovelha/feiticeiro, bruxa/ cavalo/princesa, rainha/golfinho/palhaço etc. Durante esse trabalho, a leitura de Era uma vez no futuro, por exemplo, pode ser interessante para incentivar a criação de enredos em que personagens de histórias antigas invadem a vida contemporânea. Alunos de séries superiores (as últimas do ensino fundamental e as do ensino médio) podem ser convidados a investigar e diferenciar o mundo social e seus personagens, tal como eles aparecem nas histórias que são escritas, lidas e contadas para crianças pequenas. Analisar e diferenciar a rede de relações entre os personagens de histórias como As aventuras de Pedro, o Coelho, as Fábulas de Esopo ou Domingão jóia, por exemplo, pode desafiá-los a pensar os aspectos ideológicos que intervêm no trabalho dos escritores.
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Extráido da revista eletrônica "Sala do Professor - Caderno de Leituras")

Os textos que contam histórias

Um mesmo livro pode conter textos de ficção e de não-ficção, textos "inventados" e textos "verdadeiros". Por explicitarem essa distinção entre o mundo imaginário e a realidade histórica, permitem que o leitor experimente uma proximidade maior com o universo retratado neles.
Para que os alunos aprendam a se tornar usuários da escrita, é preciso que convivam com ela em circunstâncias diversas, marcadas por diferentes propósitos comunicativos. Por isso é que as situações de produção e interpretação de textos na escola devem ser "verdadeiras", isto é, tanto quanto possível semelhantes àquelas praticadas na vida "real", fora da escola, no dia-a-dia dos cidadãos. Livros que contenham diferentes tipos de texto, em contextos de uso adequados, devem fazer parte da biblioteca da classe. Uma mesma história pode ser contada usando-se, por exemplo, cartas, cronologias, biografias, legendas, informes etc., os quais são organizados pelo autor para complementar a trama da história que ele está narrando. Esse processo pode ser exemplificado com Tudo é semente. Esse livro, que se complementa pela beleza das ilustrações, reúne diversos tipos de texto. Dividido em três partes, inicia-se com uma narração, acompanhada de ilustrações que retratam as páginas de um diário. Vale lembrar que essas ilustrações, por sua vez, são acompanhadas de um outro tipo de texto: as legendas. A seguir é apresentada a história que dá título ao livro e, por fim, há uma cronologia de um personagem real que, através da narrativa que a obra nos dá a conhecer, misturou-se ao mundo fictício. Embora estejam a serviço de um mesmo enredo, esses textos diferem segundo a função que exercem: o literário conta a história, enquanto os informativos ensinam sobre o tempo, o lugar, o modo de vida em que a história está ambientada etc. Nas classes de educação infantil, os alunos estão se aproximando do mundo dos textos e mergulhando nele. Estão aprendendo a adequar o uso desses textos em situações realmente comunicativas. Entre 3 e 4 anos, é importante que o professor conheça o que os alunos sabem sobre o uso de cartas, bilhetes, notícias etc. No livro A verdadeira história dos Três Porquinhos, o clássico conto do Lobo Mau ganha nova versão, na qual há recortes de jornal que podem ser apontados como portadores de textos que se referem à história. O professor deve chamar a atenção dos alunos para esse aspecto, identificando as diferenças entre um texto e outro. Já aos 5 e 6 anos, a produção de legendas para ilustrações dos livros é uma ótima possibilidade de aprendizagem de um tipo de texto que não é literário, mas que se refere diretamente à história lida para o grupo. Os alunos podem ser convidados tanto para legendar imagens, como para construir pequenos textos informativos sobre aspectos de uma história que aparecem nas ilustrações mas não no texto - por exemplo, as expressões faciais de um personagem, seu tipo de roupa, a forma do mobiliário de um ambiente etc. Em As experiências de Tíbio e Perônio há uma divertida reunião de narrativas, balões de diálogo como nas histórias em quadrinhos e muitas ilustrações legendadas, o que faz desse livro um bom modelo para a produção desse tipo de texto aplicado a ilustrações contidas em outra obra. Nas primeiras séries do ensino fundamental, brincar de se comunicar com os personagens dos contos de fadas, escrevendo para eles ou sobre eles, pode render um rico trabalho de produção escrita. Uma proposta fecunda é sugerir aos alunos que escrevam cartas ou bilhetes para personagens de histórias conhecidas, comunicando-lhes a respeito de perigos que irão enfrentar, indagando deles sobre como puderam escapar de situações perigosas ou, ainda, questionando como se sentiram diante delas. Dois exemplos:
Escrever a Chapeuzinho Vermelho aconselhando-a sobre o que pode lhe ocorrer caso opte por percorrer o caminho não recomendado por sua mãe.
Redigir uma carta endereçada a Cinderela, perguntando, entre outras coisas, o que lhe passou pela cabeça quando ouviu soarem as doze badaladas do relógio. Em Vice-versa ao contrário - uma coletânea de novas versões para narrativas conhecidas - ao reinventar a história do conde Drácula, Heloisa Prieto cria uma correspondência entre dois personagens inventados por ela. O tema principal das cartas é o mistério que cerca o famoso vampiro, o que resulta numa "brincadeira" divertida. O professor pode propor aos alunos algo semelhante, com personagens de narrativas que tenham sido trabalhadas em classe. É interessante observar que nesse mesmo livro há outro tipo de texto: os boxes com informação sobre os autores dos contos originais e uma síntese da versão original. Para as classes da quinta à oitava série, a proposta é produzir textos informativos cujo tema seja "irreal", porque vinculado diretamente ao mundo da fantasia, mas capaz de dar suporte à compreensão da história. Três sugestões: "A moda na era Cinderela", "Os fatos mais marcantes nos 100 anos de sono da princesa Aurora", "As receitas de Branca de Neve para deleite dos anões". Outra situação interessante em que textos diversos se casam com textos literários é a de escrever a biografia de um personagem dos contos clássicos. Na série de livros da coleção composta por Drácula, Robin Hood, Beleza Negra, O Corcunda de Notre-Dame e O médico e o monstro, a história desses personagens é acompanhada de informações sobre a vida cotidiana no tempo em que eles teriam vivido, bem como de ilustrações legendadas, cronologias, linhas do tempo e outros textos que mesclam a ficção e a realidade, a imaginação e a história, permitindo assim que o leitor experimente uma proximidade maior com o universo retratado nessas obras.
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Extraído da publicação eletrônica "Sala do Professor - Caderno de Leituras")

sábado, junho 25, 2005

A Primeira Só (Marina Colasanti)




Era linda, era filha, era única. Filha de rei. Mas de que adiantava ser princesa se não tinha com quem brincar?
Sozinha, no palácio, chorava e chorava. Não queria saber de bonecas, não queria saber de brinquedos. Queria uma amiga para gostar.
De noite o rei ouvia os soluços da filha. De que adiantava a coroa se a filha da gente chora à noite? Decidiu acabar com tanta tristeza. Chamou o vidraceiro, chamou o moldureiro. E em segredo mandou fazer o maior espelho do reino. E em silêncio mandou colocar o espelho ao pé da cama da filha que dormia.
Quando a princesa acordou, já não estava sozinha. Uma menina linda e única olhava para ela, os cabelos ainda desfeitos do sono. Rápido saltaram as duas da cama. Rápido chegaram perto e ficaram se encontrando. Uma sorriu e deu bom dia. A outra deu bom dia sorrindo.
- Engraçado – pensou uma - , a outra é canhota.
E riram as duas.
Riram muito depois. Felizes juntas, felizes iguais. A brincadeira de uma era a graça da outra. O salto de uma era o pulo da outra. E quando uma estava cansada, a outra dormia.
O rei, encantado com tanta alegria, mandou fazer brinquedos novos, que entregou à filha numa cesta. Bichos, bonecas, casinhas e uma bola de ouro. A bola no fundo da cesta. Porém tão brilhante, que foi o primeiro presente que escolheram.
Rolaram com ela no tapete, lançaram na cama atiraram para o alto. Mas quando a princesa resolveu jogá-la nas mãos da amiga, a bola estilhaçou jogo e amizade.
Uma moldura vazia, cacos de espelho no chão.
A tristeza pesou nos olhos da única filha do rei. Abaixou a cabeça para chorar. A lágrima inchou, já ia cair, quando a princesa viu o rosto que tanto amava. Não um só rosto de amiga, mas tantos rostos de tantas amigas. Não na lágrima que logo caiu mas nos cacos que cobriam o chão.
- Engraçado são canhotas – pensou.
E riram.
Riram por algum tempo depois. Era diferente brincar com tantas amigas. Agora podia escolher. Um dia escolheu uma e logo se cansou. No dia seguinte preferiu outra, e esqueceu-se dela logo em seguida. Depois outra e outra, até achar que todas eram poucas. Então pegou uma, jogou contra a parede e fez duas. Cansou das duas, pisou com o sapato e fez quatro. Não achou mais graça nas quatro, quebrou com o martelo e fez oito. Irritou-se com as oito partiu com uma pedra e fez doze.
Mas duas eram menores do que uma, quatro menores do que duas, oito menores do que quatro, doze menores do que oito.
Menores cada vez menores.
Tão menores que não cabiam em si, pedaços de amigas com as quais não se podia brincar. Um olho, um sorriso, um pedaço de si. Depois, nem isso, pó brilhante de amigas espalhado pelo chão.
Sozinha outra vez a filha do rei.
Chorava Nem sei.
Não queria saber das bonecas, não queria saber dos brinquedos.
Saiu do palácio e foi correr no jardim para cansar a tristeza.
Correu, correu, e a tristeza continuava com ela. Correu pelo bosque, correu pelo prado. Parou à beira do lago.
No reflexo da água a amiga esperava por ela.
Mas a princesa não queria mais uma única amiga, queria tantas, queria todas, aquelas que tinha tido e as novas que encontraria. Soprou na água. A amiga encrespou-se, mas continuou sendo uma.
Então a linda filha do rei atirou-se na água de braços abertos, estilhaçando o espelho em tantos cacos, tantas amigas que foram afundando com ela, sumindo nas pequenas ondas com que o lago arrumava sua superfície.

A DOR

(Andrea Murony)

- Estou com uma dor no céu da boca...
- Hããã?
- É. Dor no céu da boca. Na verdade é uma espécie de queimação, tipo uma azia buco-celestial, sabe ? Desde ontem.
- De onde é que você tirou isso?
- Como assim de onde tirei isso? De mim, ué, do meu corpo. Provavelmente
dos meus centros nervosos. Sou uma mulher sensível, pô!
- Você está louca.
- Louca por quê? Me dê uma razão, uma unicazinha, que comprove que meu
céu da boca não possa doer.
- Ah, razão, assim, baseada em fatos concretos, eu não tenho não; mas é que nunca ouvi falar em alguém que tenha tido dor no céu da boca.
- Nunca ouviu porque é uma inculta.
- Se você vai levar a conversa pra esse lado...
- Desculpa, foi apenas uma constatação. Veja só, eu tenho uma amiga, por exemplo, que vira e mexe tem dores nas sobrancelhas.
- Você está me tirando...
- Não estou, não. Não é sempre, ela me disse, mas periodicamente as suas sobrancelhas doem.
- Imagine, isso é tudo conversa mole.
- Não estou entendendo porque tanto ceticismo. E gratuito, heim?! Analisemos: as sobrancelhas ficam no rosto, não ficam?
- Ficam.
- E no rosto, por trás da pele, têm veias com sangue, não?
- Tem, mas o que é que tem a ver a veia com a dor?
- Como o que é que tem a ver?? Tem tudo a ver. Ainda mais que as sobrancelhas são vizinhas das têmporas que são, todo mundo sabe, muito sensíveis.
- Você já está delirando. Pra mim essa conversa não faz o menor sentido.
- Claro que faz, Val. Suponhamos que a raiz da sobrancelha encrave ou até quem sabe inflame, heim, heim? Não vai doer, é?
- Encravar vá lá, mas inflamar? Por que diabos haveria de uma raiz de sobrancelha inflamar?
- E eu é quem sei? Quem sou eu, nesta vida de mistérios, para decifrar os recôncavos segredos do corpo humano? Os desconhecidos caminhos pelos quais...
- Tá bom, tá bom, cancela a metafísica. Mas, me diga, e o céu da boca?
- Ué, também faz parte do corpo humano, tem pele e por trás da pele têm veias...
- Lá vem você com essa história de veias de novo. E o que é que faz doer? Não venha me dizer que é um dente encravado...
- Tsc, tsc, tsc, assim não há a menor condição de continuar a conversar com você. Quer saber? Vou desvendar, e vai ser agora, quais são todos os mecanismos que movem a dor pelo espetacular corpo humano e comprovar a minha teoria.
Depois de alguns minutos, ela volta, absorta, um dicionário entre os braços.
- Ahá! Ouça bem o que vou lhe dizer: “Dor: sensação desagradável, variável em intensidade e em extensão de localização, produzida pela estimulação de terminações nervosas especiais.” Heim? Pegou?
- Peguei o quê
- Como o quê?
- É só isso?
- Só isso, só isso, que é que você queria?
- Ué, pra quem saiu daqui toda emplumada, clamando aos quatro ventos que iria desvendar todos os mecanismos da dor e sei lá o que mais, me aparece agora com uma reles definição.
- Reles não senhora, que esse dicionário é conceituadíssimo.
- Está bom, mas e daí? Que raio isso tem com o céu da tua boca?
- Nossa senhora, heim? A gente também que explicar tudo, dá licença. Presta um pouco de atenção, se for possível. “(...) variável em extensão de localização” hãã?, “produzida pela estimulação de terminações nervosas especiais.”
- ???
- Bingo! É isso. Terminações nervosas especiais. Veja bem, não são quaisquer terminações nervosas, são somente as especiais.
- E quem disse que há terminações nervosas no céu da tua boca, quanto mais especiais? Ou lá na sobrancelha da fulana tua amiga?
- Nossa, como ás vezes é difícil conviver com a ignorância alheia. É claro que há terminações, senão não haveria de doer. Capitte?
- Mas pra mim não dói mesmo, acho que isso é tudo fruto dessa tua imaginação desarvorada. Mas suponhamos, olha só, eu não estou concordando com essa sandice, estou só considerando uma situação hipotética, suponhamos que realmente sua teoria tenha cabimento, essas tais terminações nervosas seriam estimuladas por...
- Comida. Só dói quando eu como. Não toda vez que como, mas tudo começou com um doce de figo, sabe, e depois até um caldinho lá que tomei me doeu e... peraí.
- Que é que foi agora?
- Olha só, olha o que achei aqui no dicionário: “Dor cansada: dor surda.”
- O ouvido está doendo também agora? Ou será o lóbulo? Já sei, já sei, encravou a cartilagem.
- Continuando: “Dor surda: dor que nem é forte nem aguda. Dor cansada”
- Santo deus, onde vai dar esse papo? Diga aí, Sherlock, qual a grande nova conclusão?
- Essa é a descrição perfeita da minha queimação. Não dói nem forte nem aguda porque é dor cansada. Claro, só pode ser isso. A dor quer doer mas está lá meio cansada, com preguiça, então não vai doer uma cabeça ou um dente, que dão muito trabalho, sabe como é, acaba doendo mesmo um céu da boca ou uma sobrancelha que são mais fáceis, né? Dói mas não é aquela coisa assim de dor. Eu acredito que ela tenha cumprido o seu papel. É. É dor, tem de doer, doeu. Assim, simples.
- Minha nossa, você endoidou de vez.
- Endoidei nada, faz muito sentido.
- Faz, faz sim. Então é isso, tá? A conversa está muito boa, deveras construtiva, mas eu já vou indo.
- Já, tão cedo...
- Pois é, meu bom senso está começando a doer.
- Cética.Maluca.


..................................................................................
A Andrea é uma poeta de Mogi das Cruzes. Minha amiga pessoal e incentivadora para que eu cria-se um blog. A Dea não para de escrever: tem 3 blogs (todos muito interessantes)

Para se contar histórias é necessário simplicidade

"As crianças amam acima de tudo a espontaneidade da sua própria imaginação, que os brinquedos, quanto mais complicados e perfeitos, mais embaraçam. Ou então preferem a complicação extrema e sempre nova das coisas vivas. Se por natureza são assim, devia deixar-se obrar a natureza. Mas os adultos querem o artifício, todos os gêneros de artifício, e impõem-os às crianças, perturbando-lhes o viço da curiosidade espontânea e da livre investigação. Por isso mesmo, a ciência é o último luxo da humanidade, sendo o seu primeiro desejo."(Amadeu Amaral)
Recebi esse texto do contador de histórias Laerte Vargas. Achei tão bacana que resolvi publicá-lo no Blog.

Poemas de Manoel de Barros 2

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) -
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra dependimentos demais
E tarefas muitas -
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
silêncio
das coisas anônimas -
Passaram essa tarefa para os poetas.
............................................................................................................Conheci a poesia de Manoel de Barros através do livro "O LIVRO SOBRE NADA", presente de Ramone Abreu, que na dedicatória escreveu que era a bela oportunidade de conhecer o olhar fotográfico (de poeira e nuvens) e a alma andarilha desse autor.
Gostei tanto do livro que comprei "O LIVRO DAS IGNORÃÇAS" (diga-se de passagem - maravilhoso).

Poemas de Manoel de Barros 1

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

.........................................................................................................
O guardador de águas
Eu sou o medo da lucidez.
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei uma idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Um descor Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liqüidamente ali.

....................................................................................................
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
(in Livro das Ignorãças, Ed. Record)

....................................................................................................
no escritório de ser inútil passo horas descascando palavras.
Vou até o caroço delas.
Ontem levei a palavra "alma" para descascar.
Descobri que é uma palavra linda, escura e de olhos baixos.
(trecho de entrevista concedida à revista Good Year, para Ana Acioly, 1989)

.............................................................................................................................
"Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh"

....................................................................................................
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.

....................................................................................................
De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos; Uma
remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco; Um
cheiro de magnólias secas. O poeta procura compor
esse inconsútil jorro; Arrumá-lo num poema; e o
faz. E ao cabo Reluz com a sua obra. Que
aconteceu? Isto: O homem não se desvendou, nem foi
atingido: Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias, Fez-se um silêncio branco... E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será
exposto Às fraquezas, ao desalento, ao amor,
ao poema.
(POESIAS, 1956, in Gramática Expositiva do Chão)
.............................................................................................................................Experimentando a manhã dos galos

... poesias, a poesia é

- é como a boca
dos ventos
na harpa
nuvem
a comer na árvore
vazia que
desfolha a noite
raíz entrando
em orvalhos...
floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca
cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém
o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros
- e é livre
como um rumo
nem desconfiado...

sexta-feira, junho 17, 2005

OS CONTOS DE FADA NO PROCESSO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

Joana Raquel Paraguassú Junqueira Villela (UNINCOR)


INTRODUÇÃO
Podem-se perguntar as razões pelas quais a psicologia junguiana se interessa por mitos e contos de fada. O Dr. Jung, disse certa vez, que é nos contos de fada onde melhor se pode estudar a anatomia comparada da psique. Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado obtém-se as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material cultural. Mas nos contos de fada, existe um material consciente culturalmente muito menos específico e, conseqüentemente, eles oferecem uma imagem mais clara das estruturas psíquicas (FRANZ, 1990: 25).
Divididos entre o bem e o mal, representados por príncipes, fadas e também por monstros, lobos e bruxas apavorantes, os contos de fadas encantam as crianças e os adultos desde a sua criação, que data da época medieval. Mas a sua função não pára aí, pois além do entretenimento, transmitem ainda valores e costumes e ajudam a elaborar a própria vida através de situações conflitantes e fantásticas. “Mitos e contos de fadas expressam processos inconscientes. A narração dos contos revitaliza esses processos e restabelece a simbiose entre consciente e inconsciente” - já havia dito Carl Gustav Jung, famoso psicanalista e discípulo de Freud (apud CEZARETTI, 1989: 24).
Segundo Bettelheim, (apud CEZARETTI, 1989: 24), que analisa as histórias mais conhecidas, todos os problemas e ansiedades infantis, como a necessidade do amor, do medo e do desamparo, da rejeição e da morte, são colocados nos contos em lugares fora do tempo e do espaço, mas muito reais para crianças. A solução geralmente encontrada na história e quase sempre leva a um final feliz, indica a forma de se construir um relacionamento satisfatório com as pessoas ao redor.
Mas evidentemente, para se chegar ao final nem tudo são flores. Os contos estão repletos de problemas como a presença do bem e do mal, e partindo desse ponto pretendemos desenvolver uma reflexão sobre a fantasia e suas imagens simbólicas nos contos de fada como recursos fundamentais no desenvolvimento humano, o que constituem o conteúdo do presente trabalho.

DESENVOLVIMENTO

A origem dos contos de fadas, segundo Marie Louise Von Franz (apud GIGLIO, 1991: 3), parece residir em uma potencialidade humana arquetípica (aliás, não somente os contos de fada, como todas as fantasias). Antigamente os pastores, lenhadores e caçadores, passavam bom tempo de suas vidas sozinhos nas florestas, campos e montanhas. Acontecia que repentinamente eram assaltados por uma visão interior muito forte, que os alvoroçava por inteiro. Corriam então de volta a suas aldeias e relatavam o que lhes tinha acontecido a todos que o quisessem ouvir. Daquela visão inicial, iam-se formando lendas, e mais tarde “contos maravilhosos”. O pensamento mítico, no caso dessas visões espontâneas, é compreendido como um pensamento essencialmente pré-lógico, elementar e arquetípico. Os arquetípicos por definição, são fatores e motivos que ordenam os elementos psíquicos em imagens, de modo típico.
Como afirma Jung (apud GIGLIO, 1991: 15), os contos de fada constituíram através dos séculos instrumentos para a expressão do pensamento mítico, perpetuando-se no tempo por desempenharem uma função psíquica importante relacionada ao processo da individuação: através deles toma-se consciência e vivencia-se arquétipos do inconsciente coletivo. Esses arquétipos, por sua vez, ao serem trazidos à consciência e dramaticamente vivenciados permitem a Psique cumprir as etapas de integração progressiva do desenvolvimento da persona, conscientização da sombra, confrontação com a anima / animus e outros arquétipos, e finalmente atingir um estado onde a comunicação Ego-Self seja fluente e criativa (apud THOMPSON, 1969: 152). Ainda a partir de uma perspectiva junguiana, (apud THOMPSON, 1969: 152) existe um lado masculino e um lado feminino em cada um de nós. Se o masculino é dominante, o feminino é recalcado. O indivíduo bem conformado necessita desenvolver ambos os aspectos. Também existem quatro características principais em cada um de nós: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Constituem pares de oponentes. Nos homens o pensamento e a sensação constituem, habitualmente, características conscientes, ao passo que o sentimento e a intuição encontram-se recalcados. Nas mulheres, sentimentos e intuição são predominantes. O lado feminino recalcado do homem é denominado anima, o lado masculino da mulher é o seu animus.
Em Franz (apud GIGLIO, 1991: 6), os contos de fada numa visão junguiana são uma representação simbólica de problemas gerais humanos e suas soluções possíveis, ou seja, as representações da fantasia são tão primárias e originais como os próprios desejos e instintos. Nos conteúdos dos contos de fada é possível ver uma projeção dos estágios originais e arquetípicos do desenvolvimento da consciência humana. Nos símbolos do inconsciente, nos sonhos e fantasias, encontram-se os mesmos princípios da expressão dos mitos e contos de fada, o que, representa um recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano.
Conforme Araújo (1980: 39), para Jung certas lendas, mitos e símbolos têm origem na infância da humanidade em que faltando recursos intelectuais, o homem apresentava uma disposição natural para aceitar o sobrenatural. Seria assim uma necessidade psicológica de buscar soluções mágicas e de criar seres fantásticos para superar uma realidade que lhe impunha limitações. O inconsciente coletivo, guardaria assim, uma necessidade de retorno as origens do homem revivendo experiências anteriores da humanidade.
À luz da psicanálise, os contos de fadas revelam os conflitos de cada um e a forma de superá-los e recuperar a harmonia existencial. Assim a tão famosa dicotomia entre o bem e o mal, presta-se numa terapia, a uma análise mais contundente da personalidade, na qual se permite trabalhar com sentimentos inconscientes que revelam a verdadeira personalidade (CEZARETTI, 1989: 26).
Diz Bettelheim (1980: 16):
Para dominar os problemas psicológicos do crescimento - separar decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de abandonar dependências infantis; obter um sentimento de individualidade e de autovalorização, e um sentido de obrigação moral - a criança necessita entender o que se está passando dentro de seu eu inconsciente. Ela pode atingir essa compreensão, e com isto a habilidade de lidar com as coisas, não através da compreensão racional da natureza e conteúdo de seu inconsciente, mas familiarizando-se com ele através de devaneios prolongados - ruminando, reorganizando e fantasiando sobre elementos adequados da estória em resposta a pressões inconscientes. Com isto, a criança adequa o conteúdo inconsciente às fantasias conscientes, o que a capacita a lidar com este conteúdo. É aqui que os contos de fadas têm um valor inigualável, conquanto oferecem novas dimensões à imaginação da criança que ela não poderia descobrir verdadeiramente por si só. Ajuda mais importante: a forma e estrutura dos contos de fadas sugerem imagens à criança com as quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor direção à sua vida.
A psicóloga e psicoterapeuta Sophia Rozzana Caracushansky, doutora em Psicologia pela USP (apud CEZARETTI, 1989: 26), afirma que os contos de fadas, usados em terapia, fornecem o estilo e a personalidade. Sua utilidade deu-se primeiramente, pelo criador da Psicanálise, Sigmund Freud, que, a título de estudo, analisou a vida de personalidades como Leonardo da Vinci através do confronto com mitos.
A psicanálise freudiana propõe que, numa análise, confronta-se o aqui e agora do paciente com sua história passada à luz dos contos de fadas. Tal sistemática permite que se reviva a primeira impressão, aquela que causou o trauma, a base do conflito (edipiano) que assemelha-se sempre a um conflito existente em um conto de fadas. A partir da localização do problema, o paciente pode ser tratado adequadamente - explica Sophia Caracushansky (apud CEZARETTI, 1989: 26).
Já dentro do enfoque oferecido pelo psicanalista Carl Gustav Jung (apud CEZARETTI, 1989: 26), a análise terapêutica tem por base os sonhos que fornecem uma indicação precisa da problemática. Analisando os sonhos o terapeuta consegue precisar ou localizar o conflito do paciente, ou o “conto de fadas” que está vivendo, orientando-o para enfrentar os obstáculos à sua realização.
Para a Dra. Sophia, (apud CEZARETTI, 1989: 26) a análise junguiana propicia ao analisando uma visão mais lúcida sobre os bloqueios que impedem sua felicidade, muitas vezes resultantes de um parto difícil, uma rejeição do sexo da criança no nascimento e outros. Além disso, desmascara no indivíduo a “persona”, a fachada social, destinada a agradar e coloca em relevo o eu interior, levando em conta sempre a problemática individual e o momento de vida da pessoa

CONCLUSÃO
A análise de dados obtidos e as reflexões que ela nos levou, remeteu-nos à conclusão que o lidar com a fantasia nos contos de fadas, é um recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano porque favorece a comunicação via imagens simbólicas com as dimensões mais profundas da Psiquê. Através dos contos de fadas adentramos magicamente a penumbra misteriosa do nosso inconsciente, condição básica para se conhecer o significado profundo de nossa vida.
Finalmente, cabe apontar que este estudo permite constatar que a força criadora e a sabedoria profunda presentes nos contos de fadas e seu conteúdo arquetípico, pode ajudar os homens a encontrar o caminho para a realização de seus poderes criativos latentes.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ARAÚJO, Henry Ribeiro Correa. Especificidades da Literatura Infantil. Belo Horizonte: Centro de Educação Permanente Prof. Luiz de Bessa / Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1980.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise nos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
CEZARETTI, Maria Elisa. Nem só de fantasias vivem os contos de fadas. Família Cristã. São Paulo, p. 24-26, maio 1989.
FRANZ, Marie-Louise Von. A Interpretação dos Contos de Fada. 3ª ed. Trad. Maria Elci Spaccaquerque Barbosa. São Paulo: Paulus, 1990.
------. A Sombra e o Mal nos Contos de Fadas. São Paulo: Paulinas, 1985.
GIGLIO, Zula Garcia (org). Contos Maravilhosos: Expressão do Desenvolvimento Humano. Campinas: NEP/UNICAMP, 1991.
THOMPSON, Clara. Evolução da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

terça-feira, junho 14, 2005

A Arte de Contar Histórias nas Escolas


As crianças estão sentadas no chão, em círculo. Ouvem a professora, que conta uma história. Umas escutam em silêncio, outras querem interferir. Mas a hora do conto ou da roda de histórias, uma prática cada vez mais disseminada nas escolas de educação infantil e ensino fundamental, chama a atenção de todas elas."

"A roda de histórias não pode deixar de acontecer aqui. As crianças pedem. É um dos momentos mais importantes da rotina delas", diz Michele Sasson Salama, 41, diretora da escola Centro de Estudos e Convivência Infantil Arraial das Cores, que adota a roda para crianças a partir de um ano.
"As histórias possibilitam que as crianças entrem em contato com outros universos e, assim, conheçam melhor os outros e a si próprias", afirma Regina Scarpa, 44, coordenadora pedagógica da ONG Cedac (Centro de Educação e Documentação para a Ação Comunitária). "Elas propiciam à criança um contato com outras realidades, culturas, experiências e visões de mundo, as ajudam a compreender os conflitos internos pelos quais possam estar passando e são, além de tudo, a porta de entrada para o mundo das letras e dos livros."
A imagem de alguém contando "causos" ao redor de uma fogueira é recorrente no imaginário popular, mas, embora esquecida durante algum tempo, tem retornado com força às escolas. "Pais, avós e tios têm cada vez menos tempo para dedicar às crianças, e a arte de contar histórias está se concentrando nas instituições", diz Linice da Silva Jorge, 52, contadora de histórias e mestre em ciência da comunicação pela USP. A maior parte do seu trabalho, hoje, concentra-se na formação de educadores: "Eles estão assumindo a função de contadores de histórias", diz.
Além de fazer parte do imaginário infantil quase naturalmente, a prática de ouvir histórias desperta habilidades importantes para o desenvolvimento das crianças. "Ela remete a exercícios de contemplação e de reflexão, e isso é indispensável num mundo acelerado como o que vivemos", afirma o professor Edmir Perrotti, 58, da Escola de Comunicações e Artes da USP.
As escolas apropriaram-se do ato de contar histórias também porque ele ajuda no trabalho educativo com a diversidade cultural, recomendado pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), na orientação geral dada pelo Ministério da Educação. Segundo Perrotti, as histórias também são úteis para atingir esse propósito. "Com tantas diferenças socioculturais no país, uma história ou um conto popular tem o poder de aproximar as pessoas. Esse tipo de narrativa simboliza a imensa teia de que é constituída a cultura."
Outra vantagem é o fato de que a criança faz seu primeiro contato com o conhecimento por meio da narrativa. Os especialistas afirmam que, por isso mesmo, o contador de histórias não deve simplificá-las ou mudar as palavras para facilitar a compreensão, mas deixar que a criança tente compreender o seu sentido pelo contexto. "Com isso, ela aprende a diferença entre texto escrito e linguagem oral, informação fundamental para o processo de alfabetização", complementa Michele Salama.
Para Graça Baruzzi, 47, coordenadora pedagógica da Escola Carandá (zona sul de São Paulo), essas atividades são uma maneira de desenvolver o gosto pela aprendizagem. "O contato com as histórias faz com que a criança viaje, fazendo uma leitura do mundo. Cada história proporciona uma nova descoberta." Na Escola Carandá, as crianças ouvem histórias desde o ensino infantil até a quarta série do ensino fundamental —nessa fase, elas também criam e apresentam suas próprias histórias.
Tanto a seleção do tipo de histórias como a forma de contá-las interfere no resultado. Francisco Marques, o Chico dos Bonecos, 44, conta histórias profissionalmente há quase 20 anos. Para ele, que utiliza bonecos, canções e outros apetrechos, contar histórias é um ritual "em que os ouvintes se envolvem não apenas com o rumo dos acontecimentos mas também com o rumor das palavras".

quinta-feira, junho 09, 2005

TRÊS CONTOS POPULARES

Aluísio de Almeida
O barba de ouro e a carantonha
Havia um rei que tinha uma bonita barba de ouro. E um dia ele foi chamado ao quarto da rainha para ver a criança que acabava de nascer. Mas esse barba de ouro era encantado e mau. Assim que viu o lindo menininho, pegou e foi comendo-o à vista de todos. A rainha, quando de novo estava esperando outra criança, combinou com a comadre para lograrem o rei. Arranjaram um coelhinho. Chamaram o barba de ouro e lhe apresentaram o filho. Ah! O rei comeu o coelhinho e gostou. A comadre levou a criança, que era uma menina, para criar por uns camponeses a um outro reinado. A menina foi crescendo, crescendo. Os pais adotivos eram pobres, não sabiam o que fazer com ela. E já estava em ponto de casar. Então mataram uma ovelha, tiraram-lhe a pele e vestiram com ela a mocinha, que ficou que nem um bicho. A madrinha, que era uma fada, pôs-lhe no dedo um anel que era para ela pedir o que precisasse. E subiram as água-furtadas da casa, despediram-se da moça e, dizendo-lhe que se fosse com Deus, pelo mundo, empurraram-na da janela. Aquela coisa foi, foi, ao leu do vento e, enfim, caiu na floresta. O bicho ficou por ali, quieto. Ouvia as cornetas: tu, tu, ru, tu, e latidos dos cães. O rei estava à caça. E então apareceram os caçadores e já levavam a arma à cara, quando o rei ordenou: não atirem! O rei desse reinado era moço e curioso. Achou esquisito aquele bicho que falava como gente. Levou-o para a cozinha do palácio e pôs-lhe o nome de Carantonha. A Carantonha assistia às festas de longe.Uma ocasião ouviu contar, na cozinha, de três grandes bailes que o rei ia dar em seguida, para escolher a sua noiva. Em todo o reinado, era um reboliço fora dos costume e costureiras e alfaiates não tinham mãos a medir. As moças queriam ser princesas. O rei gostava de ver sempre a Carantonha, que lhe prestava serviços, muito humilde. Carantonha segurava a bacia de prata para o rei lavar as mãos.
– Vossa majestade me deixa ir na festa?
- Tu, Carantonha? O rei falou assim e borrifou o rosto dela, brincando. O que é que ela ia lá fazer? Carantonha saiu chorando para o seu cantinho da cozinha. Só então é que se lembrou do anel. Esfregou-o e disse:
- Anel, pelo poder que Deus te deu, quero que me arranjes um vestido cor da terra e uns chapins muito bonitos! – Imediatamente Carantonha viu-se transformada naquela princesa mais bonita e procurou as salas de baile sem que ninguém percebesse.
Opa! Foi um sucesso! O rei dançou com ela e quase só com ela. Perguntou-lhe donde era e Carantonha respondeu:
- Eu sou da terra dos borrifos de água.
E tratou de sair despercebida, para a cozinha, vestindo de novo a pele de ovelha.
No outro dia a criadagem não falava de outra coisa: da nova princesa que aparecera e ninguém sabia de que reinado era. Quando ela foi apresentar a toalha ao rei, pediu-lhe licença para ir ao baile.
O rei atirou-lhe a toalha: - Tu, Carantonha?
Lá foi a moça para o seu cantinho da cozinha, esfregou o anel, e:- Hoje quero um vestido cor de céu.
E já estava como uma princesa. E foi entrando com jeito no salão. Opa! Que sucesso! O rei dançou com ela até a madrugada. Perguntou-lhe donde era.
– Eu? Eu sou da terra do joga a toalha. E tratou de escapulir-se.
No terceiro dia, enquanto o rei lavava as mãos depois do jantar, Carantonha pediu-lhe outra vez a licença para ir ao baile.
– Tu, Carantonha? E o rei deu-lhe um tapinha na cara, brincando.
A moça pediu ao anel o vestido cor do mar, muito mais lindo que os outros. E entrou no salão. Já o rei foi recebê-la e dançaram, dançaram.
– Donde és, bela princesa? Quero casar-me contigo, disse-lhe o rei.
– Eu? Eu sou da terra do leva um tapa.
Mais tarde a Carantonha escapou e foi vestir sua pele na cozinha. Estava acabando o baile. O rei resolveu descobrir o enigma. A princesa acabava de desaparecer. Devia estar ainda no palácio. O rei mandou a polícia ocupar todas as saídas e quando as moças iam saindo examinava uma por uma a ver-lhe o vestido cor do mar e as feições do rosto, que muito bem lembrava. Nada! Ninguém! Examinou depois as camareiras do palácio. Carantonha pediu ao anel o mesmo vestido cor do mar, cobriu-se com a pele e ficou esperando. O rei estava certo que ninguém saíra. E então só faltava examinar a Carantonha. Ele já andava desconfiado. Por isso chegou de repente, puxou a espada e rasgou-lhe um pedaço da pele. Apareceu o vestido
– Ah! É assim? – disse o rei, riscou a pele de alto a baixo e Carantonha apareceu se rindo, nos modos e no porte de uma princesa. Os cortesãos estavam admirados! Que coisa! Mas o rei, meio carrancudo, interpelou a moça.
– Tu estavas zombando de mim? Olha, que eu não sou para brincadeiras. Porque é que me dissestes que era da terra dos borrifos de água?
- Ué! Então vossa majestade não se lembra mais que quando pedi para ir ao baile da primeira noite me esborrifou a água no meu rosto?
- Ah! Tens razão. E porque na segunda noite disseste seres da terra do joga a toalha?
- Porque vossa majestade, quando pedi para ir ao baile, me jogou a toalha.
– Ah! É verdade. E na terceira noite tu erra da terra leva um tapa.
– Pois sim! Vossa majestade, quando lhe pedi para ir ao baile, me deu um tapa, brincando. Em seguida, o rei apresentou a noiva aos cortesãos e convidados, marcou-se o dia das bodas. À hora do banquete, a nova rainha, como era costume, contou uma história. A história dela, a sua infância escondida, a caçada real, a madrinha boa fada. O barba de ouro era falecido, e a rainha mãe dela. Os pais adotivos vieram morar no palácio. Parece que ainda existem, arcadinhos, arcadinhos, mas contentes da vida!
* * *Contou Luís Maria Ferreira, que lhe contou uma tia de seu pai lá por 1880, na Ilha da Madeira. Variante da conhecida Pele de burro com a Maria Borralheira, mais a interposição de um elemento novo, o barba de ouro, para explicar o motivo da transmutação, deixadas em paz as pobres madastras.


Boca calada salva a vida

Havia um velho pai que não cansava de dizer aos filhos:- "Boca calada! Boca calada salva a vida!".
Um dos filhos guardou bem o conselho e saiu pelo mundo. Uma vez ele entrou numa casa, onde viu uma mulher enterrada no chão até a cintura.Ficou com muita vontade de falar, de perguntar porque era aquele castigo. Mas quando ia abrir a boca, lembrava-se do conselho.
O homem da casa, então, começou a provocar o mocinho:
- Pergunte porque ela está enterrada? Vamos fale!
Acontece que esse homem mau matava quem perguntasse. O menino não dizia nada. Por fim, o homem ficou vencido. Ele se ajoelhou perante a mulher, lhe pediu perdão e a desenterrou, dizendo que esse menino era um justo.
* * * Contou Maria Lima Rodrigues, de Itapetininga. Esta "estória" pertence à categoria das histórias de exemplo, moralizantes. Parece ser o resumo de outra mais comprida, que ouvimos em Sorocaba, e de que damos os pontos principais. Título: Pensar três vezes antes de falar qualquer coisa. Enredo: soldado que vai servir o rei. Um ano depois, em vez de soldo, recebe um bolo, para abrir só quando estiver com a família e aquele conselho. De volta, pede pousada numa casa, cujo dono lhe mostra a esposa enterrada até a cintura, mas ele nada pergunta, e, por isso, leva-o até uma sala cheia de armas, dando-lhe a melhor carabina. Explica-lhe: todos os que perguntaram matou-os confiscando-lhes as armas. A mulher estava sofrendo aquele castigo por ser linguaruda. Chegando em casa, o soldado abriu o bolo, e tilintaram muitas moedas de ouro que o rei ali fizera esconder. Era, de fato, um soldado obediente, mesmo depois de dar baixa... E merecia o pago.


A mulher curiosa e o galo
Era uma vez um homem que entendia a linguagem dos bichos. Passeava com a mulher pelo campo. Quando ouviu dois cavalos conversarem, e deu uma bruta risada.A mulher perguntou-lhe porque se ria.
O homem respondeu:
- Por causa da conversa dos dois cavalos. Então, ela começou a instar com o marido para lhe referir a dita conversa.
– Eu bem podia contar a você o que os cavalos conversaram, mas na mesma hora que acabar de contar, morrerei.
– Mas eu quero saber! – retrucou a mulher curiosa.
– Então você quer que eu morra?
- Não sei nada disso! Tem de me contar a conversa dos cavalos!
A discussão durou muitos dias. O pobre homem ficou meio zonzo. Viu que não convencia a mulher e entregou-se.
- Olha, mulher sem coração! – falou ele – eu vou contar a você a conversa dos cavalos, mas melhor aprontar tudo para o enterro! (Dizia isto pensando que a mulher se arrependesse a última hora).
Mandou comprar o caixão, e as velas e assentou-se na rede muito triste. O galo subiu no caixão, bateu as asas e cantou.A cachorrinha, que estava num canto, pensativa, falou ao galo:
- Galo, coração de pedra! Você tem coragem de cantar na despedida de nosso dono?
- Canto e mais que canto. Ele vai morrer, porque é um moleirão e se entregou à mulher. Porque ele não faz como eu, que no terreiro tomo conta de vinte galinhas?
O homem ouvindo isso, criou coragem, de repente. Mandou o empregado trocar o caixão e as velas por um chicote. E depois pegou o chicote e perguntou a mulher:
- Você ainda quer saber a conversa dos cavalos?
- Quero, como não?
- Pois foi assim. E lepte, lepte, lepte, nas costas da mulher, que dava cada grito! Parou um pouco.
– E... você ainda quer saber?
- Quero sim! Continuou a tunda com todas as regras, até que a curiosa ajoelhou e pôs as mãos, murmurando entre soluços.
– Pelo amor de Deus! Chega! Maridinho do meu coração, não quero mais saber da conversa dos cavalos. Nunca mais!

Esta história contou-a em Sorocaba dona Guilhermina Borges. É de encantamento e exemplo ao mesmo tempo. Agora abrindo as primeiras páginas das "Mil e uma noites", vemos que o vizir, pai de Sherazade, ao tentar dissuadi-la das núpcias mortais com o sultão, conta-lhe a história do burro e do boi, cuja conversa um homem ouviu e não quis referir à esposa. Esta resolve fazer greve de fome. O marido convoca os parentes da mulher e nada consegue. Ela quer mesmo saber o que o burro disse ao boi. Quando o homem vai desatar a língua, o cachorro se dirige ao galo censurando-o por ele continuar a viver com as galinhas, como antes. O galo retruca que pode dar conta de cinqüenta, e o homem se deixa dominar por uma. Este pega o chicote e... conta tudo tudo a mulher, que em prantos promete recomeçar a comer e ser boazinha. Os parentes dão os parabéns ao esposo e retiram-se.A pequena diferença do caixão e velas é um colorido local... E o galo cantando no caixão é para modificar o realismo um tanto chocante do conto oriental. É evidente que o nosso conto foi tirado das Mil e uma noites, em época que nunca saberemos dizer, pois o que hoje se conta de boca em boca pode ser composição recente, antiga, antiqüíssima. Pode vir dos mouros da península...A influência das Mil e uma noites é geral em todos os contos de encantamento. Por exemplo, no segundo deste artigo, onde aparece a mulher enterrada até a cintura é, não obstante, vivendo. Ora, logo nas primeiras noites daquele livro imortal, aparece o príncipe, rei das Quatro Ilhas, transformando em mármore, da cintura para baixo. No primeiro conto vê-se, além do encantamento, a influência oriental nos três enigmas de nomes. Cabe aqui uma reflexão de ordem geral. Os contos de encantamento não são incoerentes. O autor recorre ao milagre ou à magia, mas observa certos limites. Na revista Eu sei tudo, lemos a tradução de um conto de autor inglês ou americano, baseando-se nas Mil e uma noites, naquele primeiro trecho em que um pescador pesca um vaso com o selo de Salomão, e do qual sai um gênio. O escritor moderno tira grandes e alegres efeitos do motivo principal, obtendo, por exemplo, que o doutor vá tirar a pressão de um doente e ouça no fone um rádio... Logo adiante, o pescador pede ao gênio que transforme os três empregados do hospício ainda no carro de doidos, em três elefantezinhos cor-de-rosa. A cor de rosa atrapalhou o escritor que num lance feliz, nos mostra os três animais entrando a portaria do hospício e termina esse episódio passando para outro, com uma frase inesperada: "Bem, aí a incoerênciafoi demais".
O povo que conta essas estórias não as inventa. Foi um do povo, um "intelectual", com licença da palavra, que as inventou de acordo com as tendências do povo, e o povo vai transmiti-las de geração em geração.


(Almeida, Aluísio de. "Três contos populares". O Estado de São Paulo, 4 de setembro de 1949)

quinta-feira, abril 28, 2005

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO (Rubem Alves)



Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades... Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão. “Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você”. E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira, até que ela adormecia e sonhava que voava nas asas do pássaro. Outra vez, voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça. “Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes,os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes”. E de novo, começavam as estórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina e, por isso, voltava sempre.Mas chegava sempre uma hora de tristeza. “Tenho que ir” - ele dizia. “Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar”.”Eu também terei saudades” - dizia o pássaro. Eu também vou chorar. Mas eu lhe vou contar um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades. Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar. Assim ele partiu. A menina sozinha, chorava de tristeza à noite imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma idéia malvada. “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. Nunca mais terei saudades e ficarei feliz”. Com esses pensamentos, comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Finalmente, ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores,com estórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse.E adormeceu feliz. Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro. “Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias...Sem a saudade, o amor irá embora”. A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar, mas isto não aconteceu.O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste.E veio o silêncio; deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo... Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola. “Pode ir, pássaro, volte quando quiser”. “Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar”. E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia. “Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo”. E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; penteava os cabelos, colocava flores nos vasos. “Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje!”. Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro. Porque, em algum lugar, ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar. Ah! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama... E era assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento. “Quem sabe ele voltará amanhã?” . E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

O menino que jogava estrelas ao mar


Um poeta foi para sua casa de praia buscar inspiração para escrever um novo livro. Seu hábito era passear pela areia toda manhã e a tarde escrevia. Numa dessas caminhadas visualizou ao longe, um jovem que se abaixava, apanhava alguma coisa na areia e a arremessava ao mar. No dia seguinte, em seu passeio, observou novamente o poeta o jovem a repetir a mesma cena da manhã anterior. Abaixava-se, apanhava algo na areia e arremessava ao mar. Na terceira manhã, ante a repetição das mesmas cenas, o poeta, intrigado, achegou-se ao jovem e perguntou: - O que fazes meu jovem? - Estou jogando essas estrelas-do-mar de volta ao oceano para elas não morrerem na praia - respondeu o jovem. - Mas porque você faz isso se milhões de estrelas-do-mar estão morrendo nas areias nesse momento e não vai fazer nenhuma diferença você salvar uma, duas ou três delas? Ao que o jovem respondeu: - Para essas duas ou três faz muita diferença. A partir desse dia, toda manhã é possível ver numa praia qualquer um jovem e um poeta arremessando estrelas de volta ao mar.

Colhida pela tradição oral. Recontada por James Silva

O HOMEM SEM SORTE




Vivia perto de uma aldeia um homem, um homem que era completamente sem sorte. Nada do que ele fazia dava certo. Muitas vezes ele plantava sementes e o vento vinha e as levava, outras vezes, era a chuva, que vinha tão violenta e carregava as sementes. Outras vezes ainda, as sementes permaneciam sob a terra, mas o sol, era tão quente, que as cozinhava. E ele se queixava com as pessoas e as pessoas escutavam suas queixas, da primeira vez com simpatia, depois com um certo desconforto e enfim quando o viam mudavam de caminho, ou entravam para dentro de suas casas fechando portas e janelas, evitando-o. Então alem de sem sorte, o homem se tornou chato e muito só. Ele começou a querer achar um culpado para o que acontecia com ele. Analisando a situação de sua família percebeu que seu pai era um homem de sorte, sua mãe, esta tinha sorte por Ter se casado com seu pai, e seus irmãos eram muito bem sucedidos, pois então, se não era um caso genético, só poderia ser coisa do Criador. E depois de muito pensar resolveu tomar uma atitude e ir até o fim do mundo falar com o Criador, que como Criador de tudo, deveria ter uma resposta. Arrumou sua malinha, algum alimento e partiu rumo ao fim do mundo. Andou um dia, um mês, um ano e um dia, e pouco antes de entrar numa grande floresta ouviu uma voz: - Moço, me ajude. Ele então olhou para os lados procurando alguém. Até que se deparou com um lobo, magro, quase sem pelos, era pele e osso o infeliz. Dava para contar suas costelas . Ele falou: - Há três meses estou nesta situação. Não sei o que está acontecendo comigo. Não tenho forças para me levantar daqui. O homem refeito do susto respondeu: - Você está se queixando a toa ...Eu tive azar a vida inteira. O que são três meses? Mas faça como eu. Procure uma resposta. Eu estou indo procurar o Criador para resolver o meu problema. - Se eu não tenho forças nem para ir ao rio beber água... Faça este favor para mim . Você está indo vê-lo, pergunte o que está acontecendo comigo. O homem fez um sinal de insatisfação e disse que estava muito preocupado com seu problema , mas se lembrasse, perguntaria. Virando as costas, continuou seu caminho. Andou um dia, um mês, um ano e um dia e de repente, ao tropeçar numa raiz, ouviu: - Moço, cuidado. E quando olhou, viu uma folhinha que vinha caindo, caindo…Olhando para cima viu que a árvore com apenas duas folhinhas. Levantou-se e observando suas raízes desenterradas, seus galhos retorcidos, sua casca soltando-se do tronco , falou: - Você não se envergonha ? Olhe as outras árvores a sua volta e diga se você pode ser chamada de árvore? Conserte sua postura. A árvore, com uma voz de muita dor, disse: - Não sei o que está acontecendo comigo. Estou me sentindo tão doente. Há seis meses que minhas folhas estão caindo, e agora, como vês, só restam duas... E, no fim de uma conversa, pediu ao homem que procurasse uma solução com o Criador. Contrariado , o homem virou as costas com mais uma incumbência. Andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou a um vale muito florido , com flores de todas as cores e perfumes. Mas o homem não reparou nisto. Chegou até uma casa e na frente da casa estava uma moça muito bonita que o convidou a entrar. Eles conversaram longamente e quando o homem deu por si já era madrugada. Ele se levantou dizendo que não podia perder tempo e quando já estava saindo ela lhe pediu um favor: - Você que vai procurar o Criador , podia perguntar uma coisa para mim? É que de vez em quando sinto um vazio no peito , que não tem motivo , nem explicação. Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto. O homem prometeu que perguntaria e virou as costas e andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou por fim ao fim do mundo. Sentou-se e ficou esperando até que ouviu uma voz. E uma voz no fim do mundo, só podia ser a voz do criador. - Tenho muitos nomes. Chamam-me também de Criador... E o homem contou então toda a sua triste vida . Conversou longamente com a voz até que se levantou e virando as costas foi saindo, quando a voz lhe perguntou: - Você não está se esquecendo de nada? Não ficou de saber respostas para uma árvore, para um lobo e para uma jovem? - Tem razão...E voltou-se para ouvir o que tinha que ser dito. Depois de um tempinho virou-se e correu ....mais rápido que o vento até que chegou na casa da jovem. Como ela estava em frente à casa , vendo-o passar chamou: - Ei!!! Você conseguiu encontrar o Criador? Teve as respostas que queria? - Sim!!! Claro! O Criador disse que minha sorte está muito no mundo . Basta ficar alerta para perceber a hora de apanhá-la! - E quanto a mim, você teve a chance de fazer a minha pergunta? - Ah! O Criador disse que o que você sente é solidão. Assim que encontrar um companheiro vai ser completamente feliz, e mais feliz ainda vai ser o seu companheiro. A jovem então abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro. - Claro que não...Já trouxe a sua resposta....Não posso ficar aqui perdendo tempo com você. Não foi para ficar aqui que fiz toda esta jornada. Adeus!!! E virando as costas correu, mais rápido do que a água, até a floresta onde estava a árvore. Ele nem se lembrava dela. Mas quando novamente tropeçou em sua raiz, viu caindo uma última folhinha. Ela perguntou se ele tinha uma resposta, ao que o Homem respondeu: - Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte, e ela está no mundo. O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. O ferro desta caixa está corroendo suas raízes. Se você cavar e tirar este tesouro daí vai terminar todo o seu sofrimento e você vai poder virar uma árvore saudável novamente. - Por favor !!!Faça isto por mim!!! Você pode ficar com o tesouro. Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia. O homem deu um pulo e falou indignado: - Você está me achando com cara de quê? Já trouxe a resposta para você. Agora resolva o seu problema. O Criador falou que minha sorte está no mundo e eu não posso perder tempo aqui conversando com você, muito menos sujando minhas mãos na terra. E virando as costas correu, mais rápido do que a luz atravessou a floresta , e chegou onde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco. O homem se dirigiu a ele apressadamente e disse: - O Criador mandou lhe falar que você não está doente. O que você tem é fome. Está a morrer de inanição, e como não tem forças mais para sair e caçar, vai morrer ai mesmo. A não ser, que passe por aqui uma criatura bastante estúpida, e você consiga comê-la. E nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho, e reunindo o restante de suas forças, o lobo deu um pulo e comeu o homem sem sorte.

O CASAL SILENCIOSO

Era uma vez um homem e uma mulher que tinham acabado de se casar. Ainda vestidos com seus trajes nupciais se acomodaram em seu novo lar mal o último convidado partiu.
- Querido - disse a jovem senhora, - Vá fechar a porta que dá para a rua. Ficou aberta.
- Fechar a porta? Eu? - falou o noivo. - Um noivo em seus trajes esplêndidos, com um manto de valor inestimável e uma adaga cravejada de pedras? Como alguém poderia esperar que eu fizesse uma coisa dessas? Você deve estar fora do juízo. Vá você mesma fechá-la.
- Ah, é? - gritou a noiva.- Você pensa que sou sua escrava? Uma mulher bonita e gentil como eu, que usa um vestido da mais fina seda? Você acha que eu me levantaria do dia do meu casamento para fechar a porta que dá para uma via pública? Impossível!
Ficaram em silêncio por um minuto ou dois, e a mulher sugeriu que poderiam solucionar o problema com uma aposta. Combinaram que o primeiro que falasse fecharia a porta. Havia dois sofás na sala, e a dupla se sentou, frente a frente, olhando-se em silêncio. Ficaram assim durante duas ou três horas. Enquanto isso um bando de ladrões passou por ali e viram que a porta estava aberta. Esgueiraram-se para dentro da casa silenciosa, que parecia deserta, e começaram a recolher todos os objetos que pudessem carregar, fosse qual fosse o seu valor. O casal de noivos os ouviu entrar, mas um achava que era o outro quem devia cuidar do assunto. Nenhum dos dois falou, nem se mexeu, enquanto os ladrões iam de um quarto a outro, até que finalmente chegaram à sala e não perceberam, de início, a sombria e estática dupla. O casal no entanto continuava sentado, enquanto os ladrões carregavam todos os valores e enrolavam os tapetes sob os pés dos esposos. Confundindo o idiota e sua obstinada esposa com manequins de cera, despojaram-nos de suas jóias. Mesmo assim a dupla continuava muda. Os ladrões se foram. A noiva e o noivo continuaram sentados a noite toda, e nenhum deles desistiu. Ao amanhecer um policial em sua ronda viu a porta aberta e entrou. Indo de um aposento ao outro, chegou finalmente ao casal e perguntou-lhes o que tinha acontecido. Nem o homem nem a mulher se dignaram a responder. O policial pediu reforços. Muitos defensores da lei chegaram, e todos foram ficando cada vez mais furiosos diante do silêncio total, que lhes parecia, obviamente, uma afronta calculada. O oficial encarregado perdeu finalmente o controle e ordenou a um de seus homens:
- Dê um tabefe ou dois nesse homem para que recupere a razão. Diante disso a mulher não conseguiu conter-se: - Por favor, senhores guardas - choramingou, - não batam nele. É meu marido!
- Ganhei! - gritou imediatamente o imbecil. - Você vai fechar a porta!