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quinta-feira, julho 28, 2005

Além das Histórias


Aprender a ler significa também aprender a estabelecer vínculos entre um número cada vez maior de informações. Um bom estímulo nesse caso são obras que combinam características de gêneros diferentes (o romance histórico, por exemplo).A biblioteca de uma escola precisa de livros de diferentes naturezas, pois a diversidade representa uma grande contribuição ao enriquecimento cultural dos alunos: romances filosóficos ou históricos em que passagens importantes na história da humanidade ganham tratamento literário; depoimentos pessoais que falam sobre modos de vida em diferentes tempos e culturas; textos que compõem manuais e outras obras de referência (enciclopédias e dicionários) etc. Muito úteis na escola e fora dela, livros assim são recursos indispensáveis ao processo de aprendizagem, mas às vezes sua utilização requer um planejamento cuidadoso. Ao adotar uma obra como Volta ao mundo em 52 histórias, na qual as narrativas vêm acompanhadas de um rico aparato de informações complementares, o professor precisa estar atento para que os alunos aprendam sobre os temas tratados pelo conjunto de textos informativos, mas sem se distanciar da idéia de que a literatura é sempre, e antes de mais nada, fonte de emoção, de prazer, de diversão, de assombro, de encanto. Muitos títulos utilizam recursos literários para informar sobre determinados temas, como Histórias da Bíblia e Mistério de Natal. Outros ainda mesclam diferentes tipos de texto, como Robin Hood e os demais títulos da mesma série, ou como na Coleção Memória e História. Na série integrada por Robin Hood, podemos observar que os ilustradores se valem de obras de arte de diferentes épocas para obter os dados de que precisam ao criar as ilustrações. Como trabalhar com esses textos? Nas classes de educação infantil, as crianças estão aprendendo a aprender. O professor pode ter na sala livros que ofereçam informações próprias para alimentar as motivações que observa em seus alunos. Por exemplo, se está em curso um estudo sobre os animais de estimação, o livro A outra enciclopédia canina, com suas ilustrações variadas e seus textos bem-humorados, pode servir como desencadeador de conversas sobre os animais que as crianças têm em casa. O professor pode ainda fazer uma lista dos tipos e nomes dos bichinhos de estimação dos alunos e organizar um painel ou um álbum de fotos dos animaizinhos e seus donos, com legendas indicando o nome dos retratados. À medida que crescem e têm cada vez mais condições de vincular diferentes tipos de informação, as crianças podem ser incentivadas a ampliar seus conhecimentos com informações relacionadas a conteúdos escolares que não são necessariamente matéria de estudo. Por exemplo: conhecer a história dos números que utilizam nos exercícios de matemática, no livro Brincando com os números, ou a história da música ao longo dos tempos em Viva a música!. Para o ensino fundamental, nas primeiras séries, as pesquisas sobre temas de ciências naturais encontram ilustrações ricas em livros como ABC do zôo, uma espécie de dicionário ilustrado sobre animais do Brasil. Além de um apoio para estudos sobre a vida animal, ele pode ser um livro para o desenvolvimento de atitudes mais comprometidas com a defesa da fauna brasileira. A Coleção Quase Tudo O Que Você Queria Saber traz, ao final de cada volume, pequenas notas que indicam caminhos possíveis ao leitor, caso ele queira mais informações sobre os temas de alguma história contada no livro. O professor pode chamar a atenção dos alunos para esse fato. Já a Coleção A de Artista, da qual faz parte, por exemplo, M de Matisse, apresenta uma forma inusitada de biografia do artista e constitui um bom material de apoio para enriquecer as atividades da área de artes. Organizados em tópicos alfabéticos, são livros que trazem fatos da vida pessoal do artista, marcas da sua produção, lugares onde viveu, pessoas que influenciaram sua vida e sua obra etc. Nas classes da quinta à oitava série, biografias e contextos históricos de criação literária são conteúdos bastante pertinentes para o momento de formação do estudante e do leitor. Os alunos, já com noções de tempo histórico, podem aprender sobre a influência dos contextos históricos na produção dos escritores e construir condições de entender por que uma mesma história ganha diferentes versões ao longo dos tempos. Nos livros Histórias para aprender a sonhar e Raineke-Raposo, por exemplo, há informações sobre o ambiente histórico e as condições de produção das histórias, material precioso para esse tipo de trabalho..................................................................................................
Extraído do site www.ciadasletras.com.br - sala do professor - caderno de leituras

A Poesia das Palavras


As crianças são extremamente receptivas às quadrinhas e a todo texto que ressalte o caráter lúdico da linguagem. É preciso aproveitar a sala de aula e colocá-las em contato com ritmos e rimas, para que elas aprendam desde cedo que a língua pode estar a serviço da poesia. Quando as crianças chegam à escola, já são falantes e usuárias competentes da língua materna, tendo portanto um conhecimento implícito das regras de seu funcionamento. É o momento de transformar esse conhecimento em algo explícito, e, para isso, os professores planejam diversas situações didáticas em que possam conversar com seus alunos sobre o funcionamento da linguagem, suas regras, a língua escrita etc. No momento em que as crianças se deparam com a leitura de textos literários, surge a necessidade de lhes mostrar o uso da língua como obra de arte. Ora, assim como o artista utiliza a tinta e o pincel para pintar seus quadros, o escritor utiliza palavras para criar seus textos. É preciso colocar os alunos em situações nas quais seja possível observar e analisar a diversidade de materiais que a língua oferece, seja em termos de ritmo e sonoridade, seja em termos de significação. Descobrir que sons combinados podem deixar uma frase engraçada, que uma palavra pode modificar completamente o sentido de um texto, que a combinação de sílabas pode dar um ritmo todo especial às histórias, que uma palavra pode ter vários significados... Enfim, descobrir que a linguagem ultrapassa a barreira das regras cotidianas e se transforma no material de trabalho do escritor não só amplia o conceito de linguagem que as crianças já têm construído, como contribui para a formação de leitores mais exigentes. Embora esses recursos também estejam presentes em todos os tipos de texto literário, nos poemas e quadrinhas eles ganham destaque especial. Por essa razão, é importante que em alguns momentos do trabalho a atenção dos alunos seja voltada especificamente para o universo das poesias e textos ritmados. A leitura de poemas e quadrinhas é uma atividade que possibilita infinitas observações: a rima, o uso dos fonemas, a brincadeira com o significado das palavras, a disposição gráfica do texto na folha de papel... As crianças entre 3 e 6 anos, que freqüentam as classes de educação infantil, têm muita sensibilidade no que diz respeito à sonoridade das palavras; por isso, brincadeiras com os sons da língua agradam muito e possibilitam inúmeras atividades. Entre 3 e 5 anos, como as crianças ainda não lêem convencionalmente, o professor pode, por exemplo, ler os poemas de Fora da gaiola, Girassóis e Bem-te-vi algumas vezes durante um período, para que elas possam conhecê-los bem. Na seqüência, pode propor que cada uma escolha o poema que gostaria de recitar para os colegas durante uma roda de leituras. Pode ser solicitado aos pais que ajudem na tarefa de memorização e, para isso, será preciso que cada criança tenha em casa seu próprio exemplar do livro. O "recital" preparado pela classe pode ser realizado também para outras turmas. Entre 5 e 6 anos as próprias crianças já são capazes de inventar quadrinhas usando rimas. Podem tentar criar um ritmo para pequenos poemas já conhecidos pela sala, como os que integram A arca de Noé; podem marcar com palmas o ritmo de poemas lidos; podem relacionar quadrinhas conhecidas ao nome ou apelido de colegas. Para tanto, o professor deve instruí-las a pensar nos sons dos nomes dos colegas procurando descobrir quadrinhas que combinem com eles. Nas primeiras séries do ensino fundamental o professor pode incluir uma atividade permanente na rotina - o "Minuto da poesia" -, na qual cada aluno apresenta para os colegas um poema que goste de ouvir e ler. É importante estimular os alunos a justificar sua escolha com apreciações do tipo "gostei porque tem rimas engraçadas", "achei diferente porque é um poema que não tem rimas". Pode-se também organizar uma coletânea de poemas para que os alunos os classifiquem segundo critérios como: bloco dos poemas que têm rimas, bloco dos poemas que não têm rimas, bloco dos poemas que são divididos em versos, bloco dos poemas narrativos etc. A partir da terceira série é possível incentivar os alunos a escrever seus próprios poemas e depois lançá-los em um "Livro de poemas", que passará a fazer parte do acervo da biblioteca da escola. Entre a quinta e a oitava série os alunos já têm, geralmente, uma competência maior no exercício da escrita, sendo capazes, portanto, de enfrentar desafios maiores na produção de textos e também de utilizar seus conhecimentos sobre o funcionamento da língua para justificar o que escrevem. Já podem estudar as rimas (pobres e ricas; cruzadas, interpoladas), os versos, a distribuição das estrofes e versos (em formas clássicas como o soneto, por exemplo), o ritmo, a sonoridade (aliteração), o uso das figuras de linguagem. Nessa etapa da escolaridade, uma boa proposta pode ser a elaboração de um livro de poemas narrativos no qual os alunos utilizem os recursos aprendidos. Nesse trabalho será possível:
Reunir poemas narrativos de vários autores.
Observar quais recursos expressivos são utilizados por eles.
Organizar antologias dos poemas de que a classe mais gostou ou de determinados autores.
Compartilhar com os colegas leituras de poemas de um autor predileto. No decorrer dessas leituras, os alunos podem produzir seus próprios poemas e compará-los com outros; podem também revisá-los à luz dos conhecimentos adquiridos. O livro Mamãe Gansa, que traz uma história bastante difundida entre as crianças, é um instrumento interessante para os primeiros passos de um projeto de trabalho como o proposto.
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Extraído do site
www.ciadasletras.com.br - sala do professor - caderno de leituras

sexta-feira, julho 01, 2005

A reinvenção das histórias

Não há história que só possa ser contada de uma única maneira. Mas, então, se de algum modo ela é alterada, continua a ser a mesma história? Reinventar histórias conhecidas aguça a percepção de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista.Quanto mais antiga a história, maior o número de versões que ela provavelmente terá. Pois, afinal, sabemos muito bem que "quem conta um conto aumenta um ponto". Os contos dos irmãos Grimm e de Andersen, por exemplo, são fruto de uma longa pesquisa de histórias populares, de narrativas da tradição oral que foram sofrendo alterações no decorrer do tempo. Hoje encontramos incontáveis versões para os contos mais consagrados que eles recolheram e compilaram. Esse é um tema interessante para discutir com as crianças na escola. Alguns livros, no entanto, se propõem algo mais inovador em relação à diversidade dos modos de contar: pretendem transgredir histórias muito conhecidas, operar recriações. É, por exemplo, o que Flavio de Souza faz em sua obra Que história é essa?, na qual conta histórias bem conhecidas, porém adotando o ponto de vista de personagens secundários que, muitas vezes, têm pouca participação no enredo da versão original. Outro livro em que algo semelhante acontece é A verdadeira história dos Três Porquinhos, de Jon Scieszka: ali o Lobo Mau narra a sua versão dos fatos, provocando, com isso, certa dúvida no leitor quanto à veracidade do que foi relatado em uma ou outra versão desse clássico da literatura infantil. Discutir com as crianças essas estratégias de criação amplia bastante seu olhar para as histórias e pode apontar novos caminhos de produção escrita. Nas classes de educação infantil é aconselhável apresentar e ler, ao longo de uma semana, várias versões de uma mesma história e em seguida perguntar às crianças sobre as diferenças e semelhanças percebidas entre elas. Depois pode-se sugerir que elas criem oralmente finais diferentes para os contos, produzindo versões do grupo. Pode-se também propor que alterem as aventuras vividas pelos personagens ou que incluam alguns novos, de tal forma que estes tomem parte nas ações relatadas. Com os alunos maiores, nas classes iniciais do ensino fundamental, é possível ampliar consideravelmente o trabalho. O professor pode sugerir a leitura de textos escritos do ponto de vista de outros personagens (como ocorre nos dois títulos mencionados antes) e discutir coisas muito interessantes. Pode, pouco a pouco, auxiliar seus alunos a considerarem pontos de vista diferentes: Será que existe sempre o bonzinho e o malvado? Cada personagem não terá tido suas razões para agir como agiu? Afinal de contas, o lobo precisa se alimentar de algo, é um animal carnívoro... Esse trabalho pode ajudar inclusive a discutir questões de ética, o que é tão importante na educação das crianças. Outras propostas de trabalho podem sugerir novas transgressões. Para isso, será necessário que o professor apóie a criação das diferentes versões, fazendo perguntas como esta: Agora quem quer ser a vovó da Chapeuzinho e contar a história como ela viu? O adulto deverá também dar sugestões que encorajem os alunos a acrescentar fatos e informações novas à narrativa conhecida; por exemplo: O que será que os caçadores estavam fazendo antes de entrar na história? Outros exemplos:
Alterar as características dos personagens e imaginar as implicações disso: como seria a história de Cinderela se ela fosse uma moça muito chata?
Introduzir modificações no enredo da narrativa original e, a partir disso, criar uma nova continuidade para ela: se João e Maria nunca tivessem encontrado uma casa feita de doces...
Acrescentar personagens de outros contos ou personalidades da atualidade em um conto consagrado: imagine que a Fera foi ao baile da Cinderela. Como a história ficaria?
Registrar encontros de personagens de dois ou mais contos distintos no decorrer de suas histórias: em que momento a Polegarzinha e o valente Soldadinho de Chumbo poderiam se encontrar? Como poderia ser esse encontro? O que eles diriam um ao outro?
É importante ter em mente que as crianças só poderão fazer as transgressões sugeridas e outras que poderão ser imaginadas se puderem ler e ouvir muitas histórias. Para que se sintam autorizadas e encorajadas a recriar narrativas consagradas, é preciso que tenham uma "biblioteca mental", um bom estoque narrativo na cabeça.Com as crianças maiores, da quinta à oitava série, a discussão pode ser mais aprofundada e as transgressões propostas a elas ainda mais elaboradas do que as anteriores. É possível, nessa faixa etária, propor que escrevam uma outra história, mas com os mesmos personagens vivendo situações semelhantes. Ou seja, a função deles dentro da trama não poderia ser modificada, apenas o contexto em que se encontram. Outra idéia é propor que pensem em transgressões livremente, desde que a história original possa ser facilmente identificada. Eles podem também ser solicitados a escrever diálogos entre personagens de uma mesma história, utilizando argumentos eficientes e eventualmente sugerindo, por meio do desfecho pensado para a conversação, novos rumos para o enredo das histórias conhecidas. Outra proposta é a reescrita de histórias conhecidas num contexto histórico e social diferente do usual, enfocando, por exemplo, problemas das grandes cidades brasileiras: Como se poderia reescrever a história de Pinóquio falando de seqüestro ou roubo de crianças? Que história poderia ser recontada enfocando a Aids, as drogas ou a prostituição? Além disso, podemos oferecer aos estudantes mais velhos informações sobre o contexto social em que várias versões de uma mesma história foram criadas, a fim de que compreendam algumas razões das diferenças entre elas.
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Extraído da revista eletrônica "Sala do Professor - Caderno de Leituras")

sábado, junho 25, 2005

Para se contar histórias é necessário simplicidade

"As crianças amam acima de tudo a espontaneidade da sua própria imaginação, que os brinquedos, quanto mais complicados e perfeitos, mais embaraçam. Ou então preferem a complicação extrema e sempre nova das coisas vivas. Se por natureza são assim, devia deixar-se obrar a natureza. Mas os adultos querem o artifício, todos os gêneros de artifício, e impõem-os às crianças, perturbando-lhes o viço da curiosidade espontânea e da livre investigação. Por isso mesmo, a ciência é o último luxo da humanidade, sendo o seu primeiro desejo."(Amadeu Amaral)
Recebi esse texto do contador de histórias Laerte Vargas. Achei tão bacana que resolvi publicá-lo no Blog.

sexta-feira, junho 17, 2005

OS CONTOS DE FADA NO PROCESSO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

Joana Raquel Paraguassú Junqueira Villela (UNINCOR)


INTRODUÇÃO
Podem-se perguntar as razões pelas quais a psicologia junguiana se interessa por mitos e contos de fada. O Dr. Jung, disse certa vez, que é nos contos de fada onde melhor se pode estudar a anatomia comparada da psique. Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado obtém-se as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material cultural. Mas nos contos de fada, existe um material consciente culturalmente muito menos específico e, conseqüentemente, eles oferecem uma imagem mais clara das estruturas psíquicas (FRANZ, 1990: 25).
Divididos entre o bem e o mal, representados por príncipes, fadas e também por monstros, lobos e bruxas apavorantes, os contos de fadas encantam as crianças e os adultos desde a sua criação, que data da época medieval. Mas a sua função não pára aí, pois além do entretenimento, transmitem ainda valores e costumes e ajudam a elaborar a própria vida através de situações conflitantes e fantásticas. “Mitos e contos de fadas expressam processos inconscientes. A narração dos contos revitaliza esses processos e restabelece a simbiose entre consciente e inconsciente” - já havia dito Carl Gustav Jung, famoso psicanalista e discípulo de Freud (apud CEZARETTI, 1989: 24).
Segundo Bettelheim, (apud CEZARETTI, 1989: 24), que analisa as histórias mais conhecidas, todos os problemas e ansiedades infantis, como a necessidade do amor, do medo e do desamparo, da rejeição e da morte, são colocados nos contos em lugares fora do tempo e do espaço, mas muito reais para crianças. A solução geralmente encontrada na história e quase sempre leva a um final feliz, indica a forma de se construir um relacionamento satisfatório com as pessoas ao redor.
Mas evidentemente, para se chegar ao final nem tudo são flores. Os contos estão repletos de problemas como a presença do bem e do mal, e partindo desse ponto pretendemos desenvolver uma reflexão sobre a fantasia e suas imagens simbólicas nos contos de fada como recursos fundamentais no desenvolvimento humano, o que constituem o conteúdo do presente trabalho.

DESENVOLVIMENTO

A origem dos contos de fadas, segundo Marie Louise Von Franz (apud GIGLIO, 1991: 3), parece residir em uma potencialidade humana arquetípica (aliás, não somente os contos de fada, como todas as fantasias). Antigamente os pastores, lenhadores e caçadores, passavam bom tempo de suas vidas sozinhos nas florestas, campos e montanhas. Acontecia que repentinamente eram assaltados por uma visão interior muito forte, que os alvoroçava por inteiro. Corriam então de volta a suas aldeias e relatavam o que lhes tinha acontecido a todos que o quisessem ouvir. Daquela visão inicial, iam-se formando lendas, e mais tarde “contos maravilhosos”. O pensamento mítico, no caso dessas visões espontâneas, é compreendido como um pensamento essencialmente pré-lógico, elementar e arquetípico. Os arquetípicos por definição, são fatores e motivos que ordenam os elementos psíquicos em imagens, de modo típico.
Como afirma Jung (apud GIGLIO, 1991: 15), os contos de fada constituíram através dos séculos instrumentos para a expressão do pensamento mítico, perpetuando-se no tempo por desempenharem uma função psíquica importante relacionada ao processo da individuação: através deles toma-se consciência e vivencia-se arquétipos do inconsciente coletivo. Esses arquétipos, por sua vez, ao serem trazidos à consciência e dramaticamente vivenciados permitem a Psique cumprir as etapas de integração progressiva do desenvolvimento da persona, conscientização da sombra, confrontação com a anima / animus e outros arquétipos, e finalmente atingir um estado onde a comunicação Ego-Self seja fluente e criativa (apud THOMPSON, 1969: 152). Ainda a partir de uma perspectiva junguiana, (apud THOMPSON, 1969: 152) existe um lado masculino e um lado feminino em cada um de nós. Se o masculino é dominante, o feminino é recalcado. O indivíduo bem conformado necessita desenvolver ambos os aspectos. Também existem quatro características principais em cada um de nós: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Constituem pares de oponentes. Nos homens o pensamento e a sensação constituem, habitualmente, características conscientes, ao passo que o sentimento e a intuição encontram-se recalcados. Nas mulheres, sentimentos e intuição são predominantes. O lado feminino recalcado do homem é denominado anima, o lado masculino da mulher é o seu animus.
Em Franz (apud GIGLIO, 1991: 6), os contos de fada numa visão junguiana são uma representação simbólica de problemas gerais humanos e suas soluções possíveis, ou seja, as representações da fantasia são tão primárias e originais como os próprios desejos e instintos. Nos conteúdos dos contos de fada é possível ver uma projeção dos estágios originais e arquetípicos do desenvolvimento da consciência humana. Nos símbolos do inconsciente, nos sonhos e fantasias, encontram-se os mesmos princípios da expressão dos mitos e contos de fada, o que, representa um recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano.
Conforme Araújo (1980: 39), para Jung certas lendas, mitos e símbolos têm origem na infância da humanidade em que faltando recursos intelectuais, o homem apresentava uma disposição natural para aceitar o sobrenatural. Seria assim uma necessidade psicológica de buscar soluções mágicas e de criar seres fantásticos para superar uma realidade que lhe impunha limitações. O inconsciente coletivo, guardaria assim, uma necessidade de retorno as origens do homem revivendo experiências anteriores da humanidade.
À luz da psicanálise, os contos de fadas revelam os conflitos de cada um e a forma de superá-los e recuperar a harmonia existencial. Assim a tão famosa dicotomia entre o bem e o mal, presta-se numa terapia, a uma análise mais contundente da personalidade, na qual se permite trabalhar com sentimentos inconscientes que revelam a verdadeira personalidade (CEZARETTI, 1989: 26).
Diz Bettelheim (1980: 16):
Para dominar os problemas psicológicos do crescimento - separar decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de abandonar dependências infantis; obter um sentimento de individualidade e de autovalorização, e um sentido de obrigação moral - a criança necessita entender o que se está passando dentro de seu eu inconsciente. Ela pode atingir essa compreensão, e com isto a habilidade de lidar com as coisas, não através da compreensão racional da natureza e conteúdo de seu inconsciente, mas familiarizando-se com ele através de devaneios prolongados - ruminando, reorganizando e fantasiando sobre elementos adequados da estória em resposta a pressões inconscientes. Com isto, a criança adequa o conteúdo inconsciente às fantasias conscientes, o que a capacita a lidar com este conteúdo. É aqui que os contos de fadas têm um valor inigualável, conquanto oferecem novas dimensões à imaginação da criança que ela não poderia descobrir verdadeiramente por si só. Ajuda mais importante: a forma e estrutura dos contos de fadas sugerem imagens à criança com as quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor direção à sua vida.
A psicóloga e psicoterapeuta Sophia Rozzana Caracushansky, doutora em Psicologia pela USP (apud CEZARETTI, 1989: 26), afirma que os contos de fadas, usados em terapia, fornecem o estilo e a personalidade. Sua utilidade deu-se primeiramente, pelo criador da Psicanálise, Sigmund Freud, que, a título de estudo, analisou a vida de personalidades como Leonardo da Vinci através do confronto com mitos.
A psicanálise freudiana propõe que, numa análise, confronta-se o aqui e agora do paciente com sua história passada à luz dos contos de fadas. Tal sistemática permite que se reviva a primeira impressão, aquela que causou o trauma, a base do conflito (edipiano) que assemelha-se sempre a um conflito existente em um conto de fadas. A partir da localização do problema, o paciente pode ser tratado adequadamente - explica Sophia Caracushansky (apud CEZARETTI, 1989: 26).
Já dentro do enfoque oferecido pelo psicanalista Carl Gustav Jung (apud CEZARETTI, 1989: 26), a análise terapêutica tem por base os sonhos que fornecem uma indicação precisa da problemática. Analisando os sonhos o terapeuta consegue precisar ou localizar o conflito do paciente, ou o “conto de fadas” que está vivendo, orientando-o para enfrentar os obstáculos à sua realização.
Para a Dra. Sophia, (apud CEZARETTI, 1989: 26) a análise junguiana propicia ao analisando uma visão mais lúcida sobre os bloqueios que impedem sua felicidade, muitas vezes resultantes de um parto difícil, uma rejeição do sexo da criança no nascimento e outros. Além disso, desmascara no indivíduo a “persona”, a fachada social, destinada a agradar e coloca em relevo o eu interior, levando em conta sempre a problemática individual e o momento de vida da pessoa

CONCLUSÃO
A análise de dados obtidos e as reflexões que ela nos levou, remeteu-nos à conclusão que o lidar com a fantasia nos contos de fadas, é um recurso fundamental no processo do desenvolvimento humano porque favorece a comunicação via imagens simbólicas com as dimensões mais profundas da Psiquê. Através dos contos de fadas adentramos magicamente a penumbra misteriosa do nosso inconsciente, condição básica para se conhecer o significado profundo de nossa vida.
Finalmente, cabe apontar que este estudo permite constatar que a força criadora e a sabedoria profunda presentes nos contos de fadas e seu conteúdo arquetípico, pode ajudar os homens a encontrar o caminho para a realização de seus poderes criativos latentes.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ARAÚJO, Henry Ribeiro Correa. Especificidades da Literatura Infantil. Belo Horizonte: Centro de Educação Permanente Prof. Luiz de Bessa / Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1980.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise nos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
CEZARETTI, Maria Elisa. Nem só de fantasias vivem os contos de fadas. Família Cristã. São Paulo, p. 24-26, maio 1989.
FRANZ, Marie-Louise Von. A Interpretação dos Contos de Fada. 3ª ed. Trad. Maria Elci Spaccaquerque Barbosa. São Paulo: Paulus, 1990.
------. A Sombra e o Mal nos Contos de Fadas. São Paulo: Paulinas, 1985.
GIGLIO, Zula Garcia (org). Contos Maravilhosos: Expressão do Desenvolvimento Humano. Campinas: NEP/UNICAMP, 1991.
THOMPSON, Clara. Evolução da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

terça-feira, junho 14, 2005

A Arte de Contar Histórias nas Escolas


As crianças estão sentadas no chão, em círculo. Ouvem a professora, que conta uma história. Umas escutam em silêncio, outras querem interferir. Mas a hora do conto ou da roda de histórias, uma prática cada vez mais disseminada nas escolas de educação infantil e ensino fundamental, chama a atenção de todas elas."

"A roda de histórias não pode deixar de acontecer aqui. As crianças pedem. É um dos momentos mais importantes da rotina delas", diz Michele Sasson Salama, 41, diretora da escola Centro de Estudos e Convivência Infantil Arraial das Cores, que adota a roda para crianças a partir de um ano.
"As histórias possibilitam que as crianças entrem em contato com outros universos e, assim, conheçam melhor os outros e a si próprias", afirma Regina Scarpa, 44, coordenadora pedagógica da ONG Cedac (Centro de Educação e Documentação para a Ação Comunitária). "Elas propiciam à criança um contato com outras realidades, culturas, experiências e visões de mundo, as ajudam a compreender os conflitos internos pelos quais possam estar passando e são, além de tudo, a porta de entrada para o mundo das letras e dos livros."
A imagem de alguém contando "causos" ao redor de uma fogueira é recorrente no imaginário popular, mas, embora esquecida durante algum tempo, tem retornado com força às escolas. "Pais, avós e tios têm cada vez menos tempo para dedicar às crianças, e a arte de contar histórias está se concentrando nas instituições", diz Linice da Silva Jorge, 52, contadora de histórias e mestre em ciência da comunicação pela USP. A maior parte do seu trabalho, hoje, concentra-se na formação de educadores: "Eles estão assumindo a função de contadores de histórias", diz.
Além de fazer parte do imaginário infantil quase naturalmente, a prática de ouvir histórias desperta habilidades importantes para o desenvolvimento das crianças. "Ela remete a exercícios de contemplação e de reflexão, e isso é indispensável num mundo acelerado como o que vivemos", afirma o professor Edmir Perrotti, 58, da Escola de Comunicações e Artes da USP.
As escolas apropriaram-se do ato de contar histórias também porque ele ajuda no trabalho educativo com a diversidade cultural, recomendado pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), na orientação geral dada pelo Ministério da Educação. Segundo Perrotti, as histórias também são úteis para atingir esse propósito. "Com tantas diferenças socioculturais no país, uma história ou um conto popular tem o poder de aproximar as pessoas. Esse tipo de narrativa simboliza a imensa teia de que é constituída a cultura."
Outra vantagem é o fato de que a criança faz seu primeiro contato com o conhecimento por meio da narrativa. Os especialistas afirmam que, por isso mesmo, o contador de histórias não deve simplificá-las ou mudar as palavras para facilitar a compreensão, mas deixar que a criança tente compreender o seu sentido pelo contexto. "Com isso, ela aprende a diferença entre texto escrito e linguagem oral, informação fundamental para o processo de alfabetização", complementa Michele Salama.
Para Graça Baruzzi, 47, coordenadora pedagógica da Escola Carandá (zona sul de São Paulo), essas atividades são uma maneira de desenvolver o gosto pela aprendizagem. "O contato com as histórias faz com que a criança viaje, fazendo uma leitura do mundo. Cada história proporciona uma nova descoberta." Na Escola Carandá, as crianças ouvem histórias desde o ensino infantil até a quarta série do ensino fundamental —nessa fase, elas também criam e apresentam suas próprias histórias.
Tanto a seleção do tipo de histórias como a forma de contá-las interfere no resultado. Francisco Marques, o Chico dos Bonecos, 44, conta histórias profissionalmente há quase 20 anos. Para ele, que utiliza bonecos, canções e outros apetrechos, contar histórias é um ritual "em que os ouvintes se envolvem não apenas com o rumo dos acontecimentos mas também com o rumor das palavras".